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Resumo
O objetivo desta pesquisa foi avaliar a presença da relação entre os sonhos e cravingNecessidade imperiosa de uma substância psicoativa ou de seus efeitos intoxicantes. Craving é um termo popular usado para o mecanismo que se supõe estar na base do controle prejudicado: alguns acreditam que esse desejo aumente, pelo menos parcialmente, como resultado de associações condicionadas que evocam respostas de abstinência condicionada. O craving pode também ser induzida pela evocação de algum estado psicológico semelhante à síndrome de abstinência do álcool ou drogas.9Veja também:abstinência condicionada, compulsão; controle prejudicado; síndrome de dependência.[No Brasil, mais recentemente, em certos círculos acadêmicos, passou-se a usar “fissura”, gíria bastante comum entre usuários de drogas, para designar o craving.] em alcoolistas nos três primeiros dias de desintoxicaçãoO processo pelo qual um indivíduo é afastado dos efeitos de uma substância psicoativa.Como um procedimento clínico, é o processo de afastamento da substância realizado de maneira segura e efetiva, de tal forma que os sintomas da abstinência são minimizados. O serviço no qual esse processo se dá é denominado de unidade ou centro de desintoxi­cação.Tipicamente, o indivíduo está clinicamente intoxicado ou já em abstinência no início da desintoxicação. A desintoxicação pode ou não envolver o uso de medicamentos. Quando os usa, o medicamento em geral é uma droga que apresenta tolerância cruzada e dependência cruzada em relação à(s) substância(s) usada(s) pelo paciente. A dose é calculada para aliviar a síndrome de abstinência sem induzir intoxicação e é gradualmente diminuída à medida que o paciente se recupera.A desintoxicação como um procedimento clínico implica que o indivíduo seja supervisionado até recuperar-se completamente da into­xicação ou da síndrome de abstinência física. O termo “autodesintoxi­cação” é usado algumas vezes para denotar a recuperação não assis­tida de um episódio de intoxicação ou de sintomas da abstinência. em unidades de internação hospitalar. Verificou-se se aqueles que tinham o craving aumentado relatavam sonhos com o tema "álcoolNa terminologia química, os álcoois constituem um nume­roso grupo de compostos orgânicos derivados de hidrocarbonetos que contém um ou mais grupos hidroxila (-OH). O etanol (ou álcool etílico, C2H5OH) é um dos membros dessa classe de compostos, e é o principal ingrediente psicoativo das bebidas alcoólicas. Por extensão, o termo “álcool” também é usado para referir-se a bebidas alcoólicas.O etanol resulta da fermentação de açúcar produzida por lêvedos. Em condições normais, as bebidas produzidas por fermentação têm uma concentração de álcool que não ultrapassa 14%. Na produção de álcoois por destilação, ferve-se uma mistura fermentada e o etanol que se evapora é recolhido como um condensado quase puro. Além do seu uso para consumo humano, o etanol é também usado como combustível, como solvente e na manufatura química (veja álcool impróprio para o consumo humano).O álcool absoluto (etanol anidro) é o etanol contendo não mais do que 1% de água por massa. Nas estatísticas sobre produção ou consumo de álcool, o álcool absoluto refere-se ao conteúdo de álcool (como 100% de etanol) das bebidas alcoólicas.Do ponto de vista químico, o metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico e álcool de madeira (ou de amido), é o mais simples dos álcoois. É usado como um solvente industrial e também como um adulterador para desnaturar o etanol e torná-lo impróprio para o consumo (bebidas metiladas). O metanol é altamente tóxico; dependendo da quantidade consu­mida, pode produzir turvação da visão, cegueira, coma e morte.Outros álcoois impróprios para o consumo, com efeitos poten­cialmente nocivos, são consumidos ocasionalmente, como, p.ex., o isopropanol (álcool isopropílico, freqüente em desinfetantes) e etilenoglicol (usado como anticongelante em automóveis).O álcool é um sedativo/hipnótico com efeitos semelhantes aos dos barbitúricos. Além dos efeitos sociais do uso, a intoxi­cação pelo álcool pode resultar em envenenamento e até morte; o uso excessivo e prolongado pode resultar em dependência ou numa ampla variedade de transtornos mentais orgânicos e físicos.Os transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool (F10) são classificados como transtornos decor­rentes do uso de substância psicoativa na CID-10 (F10-F19).Veja também:cardiopatia alcoólica; cirrose alcoólica; dano cerebral associado ao álcool; delirium; encefalopatia de Wernicke; escorbuto; fígado gorduroso alcólico; gastrite alcoólica; hepatite alcoólica; miopatia relacionada com álcool ou drogas; neuro­patia periférica; pancreatite alcoólica; pelagra; pseudo-síndrome de Cushing; síndrome amnésica induzida por álcool ou droga; síndrome de deficiência de tiamina; síndrome fetal alcoólica." e analisou-se a qualidade do sonoSono é um estado ordinário de consciência, complementar ao da vigília (ou estado desperto), em que há repouso normal e periódico, caracterizado, tanto no ser humano como nos outros animais superiores, pela suspensão temporária da atividade perceptivo-sensorial e motora voluntária. desses sujeitos. Foi um estudo transversal, de associação entre variáveis. A amostra foi de 77 sujeitos adultos do sexo masculino, dependentes de álcool, sem comorbidades clínicas ou psiquiátricas e não-dependentes de outras substâncias psicoativas, salvo a nicotinaUm alcalóide que é a principal substância psicoativa do tabaco. Tem efeitos tanto estimulantes quanto relaxantes. Produz um efeito de alerta no eletroencefalograma e, em alguns indivíduos, um aumento na capacidade de focalização da atenção. Em outros, reduz a ansie­dade e a irritabilidade.A nicotina é utilizada sob forma de inalação da fumaça do tabaco ou como “tabaco sem fumaça” (tabaco de mascar), rapé ou goma de mascar com nicotina. Cada tragada de fumaça de tabaco inalada contém nicotina que é rapidamente absorvida através dos pulmões e chega ao cérebro em segundos. A nicotina provoca uma tolerância e uma dependência consideráveis. Devido ao seu rápido metabolismo, os níveis cerebrais de nicotina caem rapidamente e o fumante sente um desejo intenso (craving) de mais um cigarro, 30-45 minutos depois de fumar o último.No usuário de nicotina que se tornou fisicamente dependente, desenvolve-se uma síndrome de abstinência depois de algumas horas da última dose: necessidade imperiosa (craving) de fumar, irri­tabilidade, ansiedade, raiva, dificuldade de concentração, aumento do apetite, diminuição da freqüência cardíaca e, por vezes, dor de cabeça e perturbações do sono. O desejo intenso tem seu pico em 24 horas e declina ao longo de várias semanas, apesar de poder ser evocado por estímulos associados a hábitos de fumar anteriores.O tabaco contém várias outras substâncias além da nicotina. O uso prolongado do tabaco pode resultar em câncer do pulmão, cabeça ou pescoço, em doenças cardíacas, em bronquite crônica, em enfi­sema e em outros transtornos físicos.A dependência de nicotina (F17.2) está classificada na CID-10 como um transtorno por uso do tabaco em transtorno por uso de substância psicoativa.. Os instrumentos foram: entrevista estruturada; escala de avaliação do craving; questionário de avaliação do sono e dos sonhos; Mini-MentalSaúde mental é um termo usado para descrever um nível de qualidade de vida cognição ou emoção ou a ausência de uma doença mental. Na perspectiva da psicologia positiva ou do holismo, a saúde mental pode incluir a capacidade de um indivíduo de apreciar a vida e procurar um equilíbrio entre as actividades e os esforços para atingir a resiliência psicológica. A Organização Mundial de Saúde afirma que não existe definição"oficial"de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjectivos, e teorias relacionadas concorrentes afectam o modo como a"saúde mental"é definida. http://www.who.int/whr/2001/chapter1/en/index.html, World Health Organization, 2001 State Examination e questionário Short-Form Alcohol Dependence Data. Quanto à fase inicial do sono, 67,6% considerou no mínimo satisfatória, 80,5% emitiu a mesma opinião quanto ao seu final, porém apenas 22,1% nunca apresentou interrupções durante o sono. Sonhar com álcool não foi um comportamento freqüente (27,3%), e a média de pontuação do craving foi "fraca", havendo associação entre sonhar com álcool e um aumento no craving (p < 0,001). Os sonhos podem ser mais bem aproveitados pelos profissionais da dependência(F1x.2)Em termos gerais, o estado de necessidade ou dependência de alguma coisa ou alguém para apoio, funcionamento ou sobrevivência. Quando aplicado ao álcool e outras drogas, o termo implica a neces­sidade de repetidas doses da droga para sentir-se bem ou para evitar sensações ruins. No DSM-IIIR, a dependência é definida como “um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e psicológicos que indicam que uma pessoa tem o controle do uso da substância psico­ativa prejudicado e persiste nesse uso a despeito de conseqüências adversas”. Equivale aproximadamente à síndrome de dependência da CID-10. No contexto da CID-10, o termo dependência refere-se de maneira geral a qualquer dos elementos da síndrome. O termo é freqüentemente usado como equivalente de adicção e de alcoo­lismo.Em 1964 uma Comissão de Peritos da OMS introduziu “depen­dência” em substituição a adicção e hábito10. O termo pode ser usado de maneira genérica em relação a todas as drogas psicoativas (depen­dência de drogas, dependência química, dependência do uso de subs­tância), ou referir-se especificamente a uma droga em particular ou a uma classe de drogas (p.ex., dependência de álcool, dependência de opióide). Embora a CID-10 descreva dependência em termos aplicá­veis a todas as classes de drogas, há diferenças entre os sintomas de dependência característicos das diferentes drogas.De forma não qualificada, dependência refere-se a ambos os elementos físicos e psicológicos. A dependência psicológica ou psíquica refere-se à vivência de controle prejudicado sobre o beber ou o uso da droga (veja craving, compulsão), ao passo que a depen­dência fisiológica ou física refere-se à tolerância e aos sintomas de abstinência (veja também neuro-adaptação). Em discussões de orien­tação biológica, dependência é freqüentemente usada com referência à dependência física apenas.Ainda no contexto psicofarmacológico, emprega-se também dependência ou dependência física num sentido mais limitado para referir-se exclusivamente ao desenvolvimento de sintomas de absti­nência que seguem uma interrupção do uso de droga. Neste sentido restrito, a dependência cruzada é vista como complementar a tole­rância cruzada, e ambas definições referem-se somente à sintomato­logia física (neuroadaptação). química, devendo ser utilizados elementos sinalizadores de uma "situação de risco" nas técnicas de prevenção à recaídaO retorno ao uso de bebida ou de outra droga após um período de abstinência, freqüentemente acompanhado pela reinstalação de sintomas de dependência. Alguns autores fazem distinção entre recaída e deslize, este último denotando uma ocasião isolada do uso de álcool ou droga..


Palavras-chave: Sonhos, sono, álcool, craving (fissura).


Abstract

 

The objective of this research is to evaluate the existence of a possible connection between dreams of alcohol-addicted patients and the craving they have during the first three days of detoxication at hospital ward units. The aim was to verify if those who had increased craving reported dreams where the theme "alcohol" was present, as well as to analyze the subjects'quality of sleep. It was a transversal study, with association of the sample variables. The taken sample has included 77 adult males, alcohol addicted, who would not have clinical or psychiatric comorbidities. In addition, the subjects would not be addicted to any other psychoactive substance but nicotine. The following instruments have been used: an Information File, where the subjects should fill in their social-demographic status; a Craving Evaluation Questionnaire; a Sleep and Dream Evaluation Questionnaire, Mini-Mental State Examination and Short-Form Alcohol Dependence Data Questionnaire ). 67,6% of the subjects considered the sleeping initial stage at least "satisfactory", 80,5% of the subjects stated the same concerning the sleeping final stage, but only 22,1% of the subjects never presented interruptions while sleeping. Dreaming of "alcohol" had not been a frequent behaviour (27,3%) and the average craving rating was "low"; there is a connection between dreaming of alcohol and craving increase (p < 0,001). Dreams can be better used by professionals who assist chemical addicted patients, and indicators of a "risk situation" should be used in the techniques of Relapse Prevention.

Keywords: Dreams, sleep, alcohol, craving.

 

Introdução

 

O craving é um fator que pode estar presente tanto durante o uso do álcool, como na fase de desintoxicação, ou ainda, após uma interrupção mais prolongada (BeckUm termo genérico usado para denotar os vários preparados da planta de maconha (cânhamo), Cannabis sativa. Isso inclui a folha de maconha ou diamba (com variada sinonímia de gíria), o cânhamo-da-índia ou haxixe (derivado da resina dos extremos floridos da planta) e o óleo de haxixe.Na Convenção Única de Narcóticos e Drogas de 1961, a maconha foi definida como “as extremidades floridas ou frutificadas da planta de cannabis (excluindo as sementes e as folhas sem aquelas extremidades) das quais a resina não foi extraída”, enquanto que a resina da cânabis é “a resina bruta ou purificada, extraída da planta da cannabis”. As definições são baseadas na terminologia tradicional indiana como ganja (= cânabis) e charas (= resina). Um terceiro termo indiano, o bhang se refere às folhas. O óleo de cânabis (óleo de haxixe, cânabis líquida ou haxixe líquido) é um concentrado de cânabis obtido pela extração geralmente através de um óleo vegetal.O termo marijuana é de origem mexicana. Originalmente um termo usado para o tabaco barato (ocasionalmente misturado com cânabis), tornou-se um termo genérico para as folhas de cânabis ou a cânabis em geral, em muitos países. O haxixe, inicialmente um termo utilizado para a cânabis nas áreas do Mediterrâneo oriental, é hoje utilizada para a resina da cânabis.A cânabis contém pelo menos 60 canabinóides, muitos dos quais biologicamente ativos. O componente mais ativo é o delta 9-tetrahidro­canabinol (THC), o qual pode ser detectado na urina várias semanas após seu uso (geralmente após ter sido fumado), bem como seus metabólitos.A intoxicação pela cânabis produz sensação de euforia, leveza dos membros e geralmente retração social. Prejudica a capacidade para dirigir veículos bem como para executar outras atividades complexas que requerem habilidade; prejudica a memória imediata, o nível de atenção, o tempo de reação, a capacidade de aprendizado, a coordenação motora, a percepção de profundidade, a visão peri­férica, a percepção do tempo (a pessoa geralmente tem a sensação de passagem mais lenta do tempo) e a detecção de sinais. Outros sinais de intoxicação podem incluir ansiedade excessiva, desconfiança ou idéias paranóides em alguns e euforia ou apatia em outros, juízo crítico prejudicado, irritação conjuntival, aumento de apetite, boca seca e taquicardia. A cânabis às vezes é consumida com álcool, o que aumenta os efeitos psicomotores.Há registros de que, em casos de esquizofrenia, o uso da cânabis pode precipitar recaídas. Estados de ansiedade e de pânico agudos, e estados delirantes foram também relatados na intoxicação por cânabis; estes geralmente regridem em alguns dias. Os canabinóides são às vezes usados terapeuticamente para glaucoma e para as náuseas em tratamentos quimioterápicos do câncer.Os transtornos por uso de canabinóides estão incluídos nos transtornos por uso de substância psicoativa na CID-10 (classifi­cados em F12)Sinonímia: ceruma; diamba; erva; fumo; liamba; maconha; suruma; marihuana; marijuana.Veja também:síndrome nolitiva. et al., 1999), sendo este um dos sinais de alerta que poderia levar a um lapso ou recaída (Hogstrom et al., 1999).

Imagens mentais associadas ao álcool podem interferir no aumento do craving, e este conhecimento
auxilia o paciente em termos de auto-eficácia, pois o instrumentaliza a entender que determinadas situações ou cenas devem ser evitadas para não comprometer sua abstinênciaA abstenção do uso de droga ou (particularmente) de bebidas alcoólicas, por questão de princípio ou por outras razões.Quem pratica a abstinência de álcool é chamado de “abstêmio” ou “abstêmio total”. A expressão “atualmente abstinente”, freqüentementeempregada em inquéritos populacionais, geralmente define uma pessoa que não ingeriu bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses; esta definição não coincide necessariamente com a descrição que o próprio indivíduo faz de si como um abstêmio.O termo “abstinência” não deve ser confundido com “síndrome de abstinência” ( Deve-se, no entanto, diferenciar “abstêmio” (pessoa que não bebe ou não usa drogas) de “abstinente” (pessoa que presentemente não está bebendo, que não está usando drogas).Veja também: sobriedade; temperança. (Weinstein et al., 1998).

À medida que 100% dos sonhos são compostos de imagens visuais (Reimão, 1996), o material onírico
pode ser utilizado como mais um instrumento para avaliar o craving em indivíduos alcoolistas (Weinstein et al., 1998), bem como para que sejam elaboradas estratégias de prevenção de recaída, sendo útil que se ampliem pesquisas com este enfoque na área da dependência química (Schredl, 1999).

Kalra et al. (2000) realizaram uma pesquisa com pacientes psiquiátricos, entre eles dependentes químicos (28%) que estavam utilizando psicofármacos como benzodiazepínicosUm grupo de drogas estruturalmente relacionadas, usadas primordialmente como sedativos/hipnóticos, relaxantes muscu­lares e antiepilépticos, e outrora denominados de “tranqüilizantes menores”. Acredita-se que estes agentes produzam efeitos terapêu­ticos ao potencializar a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), um importante neurotransmissor inibidor.Os benzodiazepínicos foram introduzidos para substituir os barbitúricos, como uma alternativa mais segura. Eles não suprimem o sono REM na mesma medida que os barbitúricos, mas tem um potencial significativo para induzir dependência e uso indevido.Os benzodiazepínicos de ação curta incluem o halazepam e o triazolam, ambos com início de ação rápida; o alprazolam, o flunitra­zepam, o nitrazepam, o lorazepam e o temazepam com início inter­mediário; e o oxazepam com início lento. Têm-se relatado amnésia anterógrada profunda (apagamento) e reações paranóides com o uso de triazolam, bem como insônia de rebote e ansiedade. Muito clínico tem encontrado problemas particularmente difíceis na interrupção do tratamento com o alprazolam.Os benzodiazepínicos de ação longa incluem o diazepam (com o mais rápido início de ação), o clorazepato (também de início rápido), o clordiazepóxido (início intermediário), o flurazepam (início lento) e o prazepam (início mais lento). Os benzodiazepínicos de ação longa podem produzir um efeito incapacitante cumulativo e tem maior proba­bilidade de causar sedação diurna e perturbações motoras que os agentes de ação curta.Mesmo em doses terapêuticas, a interrupção abrupta dos benzodiazepínicos induz uma síndrome de abstinência em até 50% das pessoas tratadas por seis meses ou mais. Os sintomas são mais intensos com as preparações de ação curta; com os benzodiazepí­nicos de ação longa os sintomas de abstinência aparecem uma ou duas semanas depois da interrupção e duram mais, mas são menos intensos. Como com outros sedativos, é necessário um programa de desintoxicação lenta para evitar complicações graves como as convulsões da abstinência.Alguns benzodiazepínicos têm sido usados em combinação com outras substâncias psicoativas para acentuar a euforia, por exemplo, ex., 40-80 mg. de diazepam tomados logo antes ou imediatamente após uma dose de manutenção diária de metadona. Os benzodiazepí­nicos são, com freqüência, usados de indevidamente em combinação com o álcool ou na dependência de opióides (veja uso de múltiplas drogas).A superdose fatal é rara com qualquer benzodiazepínico, a menos que ele seja ingerido concomitantemente ao álcool ou outro depressor do sistema nervoso central., antidepressivosUm grupo de substâncias psicoativas prescritas para o trata­mento dos transtornos depressivos; também são usados em outras condições, tais como o transtorno do pânico. Há três classes princi­pais: os antidepressivos tricíclicos (quer são principalmente inibidores da recaptura de noradrenalina); os agonistas de receptores e bloque­adores da recaptura da serotonina; e os inibidores da monoamino-oxidase, menos comumente prescritos. Os antidepressivos tricíclicos têm um risco de abuso relativamente baixo, mas algumas vezes são usados sem finalidade terapêutica por seus efeitos psíquicos imediatos. Desenvolve-se tolerância aos seus efeitos anticolinérgicos, mas não está esclarecido se ocorre uma síndrome de dependência ou uma síndrome de abstinência. Por estas razões, o uso impróprio de antidepressivos está incluído na categoria F55 da CID-10, abuso de substâncias que não produzem dependência., antipsicóticos e estabilizadores de humor, durante o período de internação hospitalar, e analisou-se como eram os sonhos desta amostra (n = 50). Os sonhos desses pacientes foram comparados aos de voluntários normais, tendo sido obtidos os seguintes resultados: os pacientes recordaram menos os seus sonhos, seus conteúdos foram mais aterrorizantes e ocorreram mais repetições dos relatos, quando comparados com o grupo-controle. Essas diferenças ocorreram mesmo antes do aparecimento da doença mental. Após o início da farmacoterapia, 78% dos pacientes observados tiveram seus sonhos suprimidos, sendo que, do grupo que tomava benzodiazepínicos, apenas 18% não reduziu seus sonhos. Essa redução significativa associada aos benzodiazepínicos pode ser explicada pela sua ação diminuindo o sono REM e o estágio 4 do sono, fases estas relacionadas à produção do sonho. Kalra et al. (2000) referem, porém, que não é possível afirmar se os sonhos são suprimidos com o uso desse tipo de medicação ou se a sua ação causa apenas um prejuízo na memória onírica.

O álcool que, durante o seu uso, pode, a princípio, prolongar o sono e reduzir a quantidade de sono
REM, quando é retirado, tem um efeito contrário: o sono é diminuído, a ansiedadeAnsiedade, ânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração etc. aumenta e ocorrem muito mais sonhos pelo aumento compensatório do sono REM (Usher, 1991).

Drummond et al. (1998) pesquisaram alcoolistas na fase de desintoxicação e constataram que o sono
desse grupo tem uma duração menor, é mais fragmentado e superficial no início da abstinência, melhorando lentamente no decorrer do primeiro ano, caso não ocorram recaídas.

Schredl (1999) investigou 74 pacientes alcoolistas no período de duas a quatro semanas após a retirada do álcool e constatou que a recordação dos sonhos por este grupo, na fase de desintoxicação, está levemente aumentada, o que poderia ser explicado por um aumento na freqüência de despertares noturnos. O despertar durante ou após a fase REM parece ocasionar o armazenamento do conteúdo sonhado na memória recente, o que facilitaria o seu resgate. A presença de pesadelos, é preciso salientar, foi comum nessa amostra.

Em sua pesquisa, Schredl (1999) observou que fatores como: dias de abstinência, duração do alcoolismo e a quantidade de álcool ingerida diariamente não foram relacionadas à freqüência da recordação dos sonhos, havendo, no entanto, uma correlação positiva com quantidade de sono REM, latência curta REM e uma elevada densidade do sono REM. Um estado negativo antes de dormir, nessa pesquisa, esteve associado a uma prevalência maior de emoções negativas no conteúdo dos sonhos.

Christo e Franey (1996) relatam que 84% de 101 sujeitos pesquisados comentaram ter sonhado com substâncias psicoativas, o que ocorreu com maior freqüência quando estavam abstinentes. Sonhar com essas substâncias, nessa pesquisa, estava associado com a ocorrência de craving e insônia.

Há uma diferença significativa entre homens alcoolistas e não-alcoolistas quanto ao conteúdo de seus sonhos: os primeiros, ao contrário dos demais, costumam sonhar com a bebida alcoólicaLíquido que contém álcool (etanol) e é destinado a ser bebido. Quase todas as bebidas alcoólicas são preparadas por fermentação, que pode ser seguida – no caso dos destilados – por destilação. A cerveja é produzida através da fermentação de cereais (cevada maltada, arroz, milho, etc.) freqüentemente com a adição de lúpulo. Os vinhos são produzidos através da fermentação de frutas, particular­mente de uvas. O Xerez, o vinho do Porto e outros vinhos fortificados são vinhos aos quais se adicionam certos destilados, habitualmente para obter-se um conteúdo de etanol de cerca de 20%. Outros produtos de fermentação tradicionais são o hidromel (a partir de mel), cidra (de maçã ou outras frutas), saquê (de arroz), pulque (do cacto agave) e chicha (de milho).Os destilados variam quanto à matéria prima (cereal ou fruta) da qual são derivados: por exemplo, a vodca é feita a partir de cereais ou de batatas; o uísque, de centeio ou milho; o rum, de cana de açúcar; e o conhaque, de uvas ou outras frutas.O álcool também pode ser sintetizado quimicamente (do petróleo, por exemplo), mas raramente tem-se usado isso para produzir bebidas alcoólicas.Inúmeros congêneres – constituintes das bebidas alcoólicas que não o etanol e a água – já estão identificados, mas o etanol é o prin­cipal ingrediente psicoativo em todas as bebidas alcoólicas comuns.As bebidas alcoólicas têm sido usadas desde a pré-história na maioria das sociedades tradicionais, exceto na Australásia, na América do Norte (logo ao norte da atual fronteira entre os EUA e o México) e na Oceania. Muitas bebidas fermentadas tradicionais tinham um conteúdo de álcool relativamente baixo e só podiam ser armazenadas por poucos dias.A maioria dos governos procura criar alvarás ou impostos espe­ciais ou mesmo controlar completamente a produção e a venda de álcool, embora possa permitir a produção caseira de diversos tipos de bebidas alcoólicas. Em vários países, certas bebidas alcoólicas (prin­cipalmente destiladas) são produzidas ilicitamente, e podem se conta­minar com substâncias tóxicas (chumbo, por exemplo) no processo de produção. e com a transição para a sobriedade(1) Abstinência continuada do uso de álcool e de drogas psicoativas (veja recuperação).(2) No uso corrente dos Alcoólicos Anônimos e de outro grupos de ajuda-mútua, refere-se à aquisição e manutenção do controle sobre a vida e seu equilíbrio, em geral. “Limpo” , “seco” e “direito” são alguns sinônimos de sóbrio, principalmente em relação a drogas.(3) Menos freqüente atualmente, a moderação ou padrões habituais de ingestão moderada, próximo do sentido inicial de tempe­rança., também utilizando seus sonhos para expressar o craving, o que torna possível trabalhar a prevenção à recaída (Peters, 1997).

 

Objetivo

 

Estudar, em pacientes alcoolistas internados para desintoxicação, a associação entre a presença do conteúdo "álcool" nos sonhos e o aumento no craving, a gravidade da dependência, a quantidade de álcool consumida, a dose de benzodiazepínico utilizada e a fragmentação do sono.


Método

 

Este foi um estudo transversal, de associação entre variáveis, que utilizou uma amostra "por conveniência". Fizeram parte da amostra 77 sujeitos dependentes do álcool, do sexo masculino, com grau mínimo de escolaridade de quinta série do ensino fundamental, internados em duas unidades especializadas em dependência química de Porto Alegre, Rio Grande do Sul - uma pública, a Unidade de Desintoxicação do Hospital Psiquiátrico São Pedro, e outra privada, a Clínica São José. O período de coleta dos dados foi entre outubro de 2001 e agosto de 2002.

A idade média apresentada foi de 41,5 anos (SD = 8,8), sendo o limite inferior e o superior equivalentes a 18 e 63 anos, respectivamente. A última ingesta de bebida alcoólica devia ter ocorrido nas 24 horas precedentes à internação. Os sujeitos avaliados não podiam estar desorientados auto e alopsiquicamente, apresentar sintomas

psicóticos ou depressivos, bem como ter déficit cognitivo ou sintomas de privação que alterassem a performance nos testes. Não foram incluídos os pacientes que apresentaram um quadro de delirium tremens(F10.4)Síndrome de abstinência com delirium; um estado psicótico agudo que ocorre em indivíduos dependentes de álcool, durante a fase de abstinência, e caracterizado por confusão, desorientação, ideação paranóide, delírios, ilusões, alucinações (tipicamente visuais ou táteis, menos comumente auditivas, olfatórias ou vestibulares), inquietação, distraibilidade, tremores (algumas vezes grosseiros), sudorese, taqui­cardia e hipertensão. É usualmente precedida por sinais de síndrome de abstinência simples.O início do delirium tremens ocorre usualmente 48 hs ou mais após a suspensão ou a redução do consumo de álcool, mas pode apre­sentar-se até 1 semana após este período. Deve ser distinguido da alucinose alcoólica, que nem sempre é um fenômeno da abstinência. A condição é conhecida coloquialmente como “DT”. durante a internação atual, bem como aqueles que dependiam de outras substâncias psicoativas, salvo a nicotina.

No total, foram excluídos 17 sujeitos, dos quais sete apresentavam sintomas psicóticos, dois tinham um
quadro de deliriumUma síndrome orgânica cerebral aguda caracterizada por pertur­bações concomitantes da consciência, da atenção, da percepção, da orientação, do pensamento, da memória, do comportamento psico­motor, das emoções e do ciclo sono-vigília. A duração é variável, de poucas horas a poucas semanas e a gravidade varia de leve até muito grave. A síndrome de abstinência induzida pela retirada do álcool com delirium é conhecida como delirium tremens. tremens e oito estavam abstinentes do álcool há mais de 24 horas, restando, então, os 77 participantes que compuseram esse estudo.

Foram utilizados como instrumentos: 1) Entrevista estruturada com o objetivo de definir o perfil sociodemográfico da amostra estudada, avaliar critérios de inclusão e exclusão e a quantidade de álcool consumida diariamente, sendo esta convertida em "Unidades Internacionais de Álcool" (Laranjeira e Pinsky, 1997); 2) Questionário Short-Form Alcohol Dependence Data - SADD criado por Raistrick (1983) e padronizado no Brasil por Jorge e Masur (1986) para avaliar o grau de gravidade da dependência do álcool; 3) Mini-Mental State Examination: MMSE (Folstein e McHugh, 1975) para excluir da amostra os pacientes com prejuízo cognitivo, sendo utilizado como ponto de corte o escore 25; 4) Questionário para avaliação do craving (Araujo, 2002) constituído por 11 questões objetivas que se referem ao craving avaliado nos três primeiros dias de desintoxicação. Esta escala classifica o craving em: insignificante (0-5 pontos), leve (6-14), médio (15-25) e forte (acima de 26 pontos); 5) Questionário para avaliar o sono e os sonhos (Araujo, 2002) composto por 19 questões objetivas que se referem ao sono e sonhos nos três primeiros dias de desintoxicação. As duas últimas escalas ainda não foram publicadas, mas encontram-se anexas à Dissertação de Mestrado de Araujo (2002).

A presente pesquisa foi avaliada por um comitê de ética e, a partir de sua aprovação, foi iniciada a coleta de dados. Cada paciente que preencheu os critérios de inclusão foi avaliado no quarto dia de abstinência, individualmente, tendo sido realizada uma Entrevista estruturada e aplicados o Questionário SADD e o Mini-exame do Estado Mental.

Os pacientes que não preencheram nenhum critério de exclusão foram incluídos na amostra e, a estes, nesse momento, aplicou-se o questionário para mensurar o craving e o questionário do sono e dos sonhos.

 

Os testes estatísticos utilizados foram os descritivos para uma análise exploratória dos dados e o Teste Qui-Quadrado para verificar a existência de associação entre variáveis, tendo sido utilizado o nível de significância como parâmetro equivalente a 5%.

 

Resultados

A média de idade com a qual os indivíduos experimentaram a bebida alcoólica foi equivalente a 18,9 anos (SD = 6,7), sendo os limiares inferior e superior correspondentes a 8 e 40 anos. O número total de internações na vida de cada sujeito pesquisado teve uma média igual a 3,94 (SD = 5,3). A quantidade média de álcool consumida diariamente, antes da internação, foi de 31,7 UI (Unidades Internacionais); SD = 22,6 (n = 77). Com relação à gravidade da dependência, de acordo com a Escala SADD, 57,1% dos sujeitos apresentaram um nível grave (n = 44), 32,5% moderado (n = 25) e 10,4% (n = 8) leve. A média de pontos da amostra pelo Mini-Mental foi de 27,7 (SD = 1,78), sendo o escore mínimo equivalente a 25
pontos (ponto de corte).

Quanto à análise descritiva do sono, observouse que 45,5% (n = 35) dos sujeitos consideraram a fase inicial do sono como "muito boa", 22,1% (n = 17) "boa", 16,9% (n = 13) "regular" e 15,6% (n = 12) "muito ruim". Quanto à fase intermediária, 22,1% (n = 17) referiram nunca ter acordado, 27,3% (n = 21) acordaram em um dia, 23,4% (n = 18) acordaram em dois dias e 27,3% (n = 21) acordaram em três dias. A fase final do sono foi avaliada como "muito boa" para 64,9% (n = 50), como "boa" para 15,6% (n = 12), como "regular" para 10,4% (n = 8) e como "muito ruim" para 9,1% (n = 7).

Quanto à análise descritiva dos sonhos, 35,1% (n = 27) não sonharam em nenhuma noite, 32,5% (n = 25) sonharam em "uma noite", 16,9% (n = 13) em "duas noites" e 15,6% (n = 12) em "três noites". Ao serem questionados quanto à ocorrência de pesadelos, 84,4% (n = 65) não apresentaram esse tipo de sonho, 13% (n = 10) apresentaram em "um dia", 1,3% (n = 1) em "dois dias", nenhum sujeito relatou ter tido pesadelos nos "três dias" e 1,3% (n = 1) "não lembrava". O conteúdo "álcool" não apareceu nos sonhos de 72,7% dos indivíduos (n = 56); 23,4% (n = 18) sonharam com álcool em "um dia", 3,9% (n = 3) em "dois dias", e nenhum sonhou com álcool nos "três dias".

Foi utilizado o Teste Qui-Quadrado para analisar se havia uma associação entre apresentar despertares noturnos durante o sono e a produção de sonho, o que não pôde ser demonstrado (x2 = 1,4154; p = 0,234). No entanto, ao se analisar essa característica do sono com o sonhar com o álcool, obteve-se uma associação significativa (x2 = 17,492; p < 0,001): os pacientes que apresentavam um aumento nos despertares noturnos relatavam mais este tipo de sonho.

Ao analisar a pontuação total da escala para avaliar o craving, obteve-se uma média igual a 12,2 pontos (SD = 10,5), tendo sido obtido nesta amostra o escore mínimo 0 (zero) e o máximo 40. Quando foi solicitado que dessem uma nota para intensidade média do craving durante a internação, obtiveram-se como resultados: 58,4% atribuíram nota zero (n = 45); 23,4% entre um e dois (n = 18); 7,8% entre três e quatro (n = 6); 2,6% entre cinco e seis (n = 2); 5,2% entre sete e oito (n = 4) e 2,6% entre nove e dez (n = 2). A partir do cruzamento estatístico das variáveis "sonhar com álcool" e " craving", observou-se a existência de associação significativa entre ambas (x2 = 14,281; p < 0,001). A média das notas da fissura do grupo que sonhou com álcool foi igual a 18,38 (SD = 10,45), enquanto a do grupo que não sonhou foi 8,08 (SD = 8,21).

Não pôde ser comprovada a associação entre sonhar com álcool e a dose utilizada de benzodiazepínico (x2 = 0,020; n.s), também não estando relacionada a dose desta medicação com o comportamento de sonhar, independentemente de seu conteúdo (x2 = 0,097; n.s).

Foi encontrada uma associação significativa entre o sonhar com o álcool e a gravidade da dependência avaliada pelo SADD (x2 = 7,298; p < 0,01) e entre sonhar com o álcool e quantidade consumida dessa substância psicoativa (x2 = 9,032; p < 0,01): aqueles alcoolistas considerados graves e que bebiam um número maior de unidades de álcool (UI) por dia apresentavam mais esse tipo de sonho. O comportamento de sonhar, independentemente de seu conteúdo, no entanto, não demonstrou estar associado à quantidade de álcool consumida (x2 = 0,259; n.s.).

 

Discussão dos resultados

 

A relação entre "sonhar com álcool" e " craving" foi um dos resultados encontrados (x2 = 14,281; p < 0,001), sendo que essa associação já havia sido descrita por alguns autores, não somente referindose ao álcool, como a outras substâncias psicoativas (Weinstein et al., 1998; Schredl, 1999; Christo e Franey, 1996; Peters, 1997; Colace, 2000).

Grande parte da amostra afirmou não ter sentido vontade de beberIngestão de bebida; especificamente, neste contexto, uso de bebida alcoólica. durante a internação: 58,4% atribuíram a nota zero à média do craving nesses dias, e a pontuação média, nesta escala específica, foi de 12,22 pontos - "fraca" (SD = 10,55). Neste caso, o fato de os pacientes estarem internados em um ambiente protegido de estímulos envolvendo o álcool, pode-se inferir, atenuou o desejo de beber nessa amostra, o que estaria de acordo com o que foi escrito por Weinstein et al. (1998) e Edwards e Dare (1997), quando estes advertiram que as imagens mentais ligadas à bebida alcoólica e sugestões cognitivas internas ou ambientais interferem no aumento do craving, sendo importante a evitação destas para a manutenção da abstinência.

Cerca de 67,6% dos pacientes deste estudo, quando questionados a respeito de seu sono, relataram que a sua fase inicial, correspondente ao "pegar no sono", foi entre "muito bom" (45,5%) e "bom" (22,1%). Quanto ao final do sono - o período de despertar - 80,5% consideraram sua qualidade entre "muito bom" (64,9%) e "bom" (15,6%), não tendo o sono sido interrompido cedo demais. Da amostra pesquisada, 22,1% nunca acordou durante a fase intermediária do sono, 35,1% acordou no máximo uma vez, 14,3%, no máximo duas, e 28,6%, três ou mais vezes. Esta característica de fragmentação da fase intermediária do sono confere com o que foi descrito por vários autores que escreveram sobre o sono de alcoolistas na fase de desintoxicação (Schredl, 1999; Usher, 1991; Drummond et al., 1998).

Mesmo o sono apresentando-se de forma entrecortada para a maior parte da amostra, é preciso destacar que 80,5% julgaram que seu sono estava melhor nos três primeiros dias de abstinência se comparado com os dias em que estavam consumindo bebidas alcoólicas, contra apenas 5,2% que o consideraram pior e 14,3% que não perceberam diferença entre ambos.

No período de privação do álcool há um aumento compensatório da fase REM (Usher, 1991), e a alta prevalência dos despertares durante essa fase do sono, nesses indivíduos, facilita que haja um resgate dos sonhos, já que seu conteúdo fica armazenado na memória recente (Schredl, 1999). Estes achados teóricos poderiam explicar o alto índice de pacientes que apresentaram algum sonho nessa amostra durante a internação: 64,9%, sendo 32,5% em "um dia"; 16,9% em "dois dias" e 15,6% em "três dias".

Não houve uma associação significativa entre acordar durante a noite e uma quantidade maior de sonhos produzidos (x2 = 1,415; p = 0,234), o que contradiz os resultados de Schredl (1999). Houve, por outro lado, uma associação entre esta característica do sono e sonhar com álcool (x2 = 17,492; p < 0,001), o que se infere, com base no trabalho de Colace (2000), que o fato de sonhar com a substância psicoativa poderia estar relacionado à ansiedade e culpa, ocasionando o despertar.

Se o objeto da análise fosse o total da amostra, se poderia observar que não foi freqüente o relato de pesadelos (14,3%), diferentemente do que foi encontrado por Shredl (1999), não sendo possível relacionar essas emoções negativas percebidas nos sonhos com os despertares noturnos.

O conteúdo "álcool" apareceu no relato dos sonhos dos indivíduos pesquisados, contudo, a freqüência com que isso ocorreu foi muito aquém do esperado: 72,7% não sonharam com álcool, 23,4% sonharam com álcool em "um dia" e 3,9%, em "dois dias". Este baixo índice contradiz o achado de Colace (2000) em dependentes de heroínaVeja opióide., o de Christo e Franey (1996) em dependentes de múltiplas drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habi­tual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos., incluindo o álcool, e o de Peters (1997) e Johnson (2000) em alcoolistas.

É preciso destacar, no entanto, que essa pesquisa verifica os sonhos referentes apenas nos três primeiros dias de abstinência, sendo um tempo mais curto do que o delimitado nos demais estudos e, além disto, não faz uma comparação entre o grupo de alcoolistas e um controle, por meio do qual, provavelmente, esse comportamento relacionado ao conteúdo do sonho, nessa amostra específica, ficaria evidenciado. A variável "sonhar com álcool", no entanto, tem uma associação significativa com a gravidade da dependência mensurada pelo SADD (x2 = 7,298; p < 0,01) e com a quantidade de álcool consumida (x2 = 9,032; p < 0,01): os pacientes alcoolistas "graves" e que consumiam maior quantidade de bebida alcoólica apresentavam mais esse tipo de sonho.

 

A quantidade de álcool consumida não estava associada a um aumento na produção de sonhos de forma geral (x2 = 0,259; n.s), o que estaria de acordo com os achados de Schredl (1999) e que poderia ser explicado por um mecanismo neuroquímico (Usher, 1991), mas estava associada, sim, especificamente, a
um aumento do número de sonhos com álcool, o que demonstra o envolvimento de mecanismos psicológicos nesse processo.

Como o uso de benzodiazepínicos na síndrome de privação do álcool é uma conduta preconizada no alívio da sintomatologia (Ramos e Galperim, 1997) e como essa medicação tem um efeito depressorQualquer agente que suprime, inibe, ou diminui alguns aspectos da atividade do sistema nervoso central (SNC). As principais classes de depressores do SNC são os sedativos/hipnóticos, os opióides e os neurolépticos. O álcool, os barbitúricos, os anestésicos, as benzodiazepinas, os opiáceos e seus análogos sintéticos são exem­plos de drogas depressoras. Os anticonvulsivantes são por vezes incluídos no grupo dos depressores, por causa de suas ações inibitó­rias da atividade neuronal anormal.Os transtornos relacionados ao uso de depressores são classifi­cados na CID-10 como transtornos por uso de substâncias psicoa­tivas, nas categorias F10 (para o álcool), F11 (para os opióides) e F13 (para os sedativos ou hipnóticos).Veja também:álcool; benzodiazepina; neuroléptico; opióide; sedativo/hipnótico. do sistema nervoso central, interferindo de forma a reduzir o sono REM e, em decorrência, a produção de sonhos (Kalra et al., 2000), foi analisada a associação entre a dosagem desse fármaco e o comportamento de sonhar, com ou sem o conteúdo "álcool".

Não foi encontrada, como foi no trabalho de Kalra et al. (2000), uma associação entre a dose de benzodiazepínico utilizada por dia e a produção de sonhos (x2 = 0,097; p = 0,754), bem como uma associação dessa medicação com o sonhar com o álcool (x2 = 0,02; p = 0,908), o que poderia ser uma variável interveniente na análise dos resultados.

Na medida em que se constata haver uma associação entre sonhar com o álcool e um aumento no craving e se reconhece a participação da vontade de consumir a bebida alcoólica como sendo uma freqüente causa de recaída (BeckUm termo genérico usado para denotar os vários preparados da planta de maconha (cânhamo), Cannabis sativa. Isso inclui a folha de maconha ou diamba (com variada sinonímia de gíria), o cânhamo-da-índia ou haxixe (derivado da resina dos extremos floridos da planta) e o óleo de haxixe.Na Convenção Única de Narcóticos e Drogas de 1961, a maconha foi definida como “as extremidades floridas ou frutificadas da planta de cannabis (excluindo as sementes e as folhas sem aquelas extremidades) das quais a resina não foi extraída”, enquanto que a resina da cânabis é “a resina bruta ou purificada, extraída da planta da cannabis”. As definições são baseadas na terminologia tradicional indiana como ganja (= cânabis) e charas (= resina). Um terceiro termo indiano, o bhang se refere às folhas. O óleo de cânabis (óleo de haxixe, cânabis líquida ou haxixe líquido) é um concentrado de cânabis obtido pela extração geralmente através de um óleo vegetal.O termo marijuana é de origem mexicana. Originalmente um termo usado para o tabaco barato (ocasionalmente misturado com cânabis), tornou-se um termo genérico para as folhas de cânabis ou a cânabis em geral, em muitos países. O haxixe, inicialmente um termo utilizado para a cânabis nas áreas do Mediterrâneo oriental, é hoje utilizada para a resina da cânabis.A cânabis contém pelo menos 60 canabinóides, muitos dos quais biologicamente ativos. O componente mais ativo é o delta 9-tetrahidro­canabinol (THC), o qual pode ser detectado na urina várias semanas após seu uso (geralmente após ter sido fumado), bem como seus metabólitos.A intoxicação pela cânabis produz sensação de euforia, leveza dos membros e geralmente retração social. Prejudica a capacidade para dirigir veículos bem como para executar outras atividades complexas que requerem habilidade; prejudica a memória imediata, o nível de atenção, o tempo de reação, a capacidade de aprendizado, a coordenação motora, a percepção de profundidade, a visão peri­férica, a percepção do tempo (a pessoa geralmente tem a sensação de passagem mais lenta do tempo) e a detecção de sinais. Outros sinais de intoxicação podem incluir ansiedade excessiva, desconfiança ou idéias paranóides em alguns e euforia ou apatia em outros, juízo crítico prejudicado, irritação conjuntival, aumento de apetite, boca seca e taquicardia. A cânabis às vezes é consumida com álcool, o que aumenta os efeitos psicomotores.Há registros de que, em casos de esquizofrenia, o uso da cânabis pode precipitar recaídas. Estados de ansiedade e de pânico agudos, e estados delirantes foram também relatados na intoxicação por cânabis; estes geralmente regridem em alguns dias. Os canabinóides são às vezes usados terapeuticamente para glaucoma e para as náuseas em tratamentos quimioterápicos do câncer.Os transtornos por uso de canabinóides estão incluídos nos transtornos por uso de substância psicoativa na CID-10 (classifi­cados em F12)Sinonímia: ceruma; diamba; erva; fumo; liamba; maconha; suruma; marihuana; marijuana.Veja também:síndrome nolitiva. et al., 1999; Hogstrom et al., 1999; Peters, 1997; Marlatt e Gordon, 1993), pode-se perceber a importância de os sonhos serem mais bem aproveitados pelos profissionais que atendem a dependentes químicos.

 

Conclusões

Uma das grandes surpresas deste estudo foi verificar que pacientes alcoolistas internados para desintoxicação, impedidos de beber não só por questões referentes à vontade própria, mas por contingências ambientais que o impossibilitam de ter acesso ao álcool, não apresentam uma intensa vontade de beber.

É interessante pensar neste ponto e talvez dar-se conta a respeito da idéia de que a internação hospitalar para desintoxicação deve oferecer, de alguma forma, um local de "continência" para esse desejo tão difícil de ser aplacado como é o de beber ou de consumir drogasDrogas e que, muitas vezes, não consegue ser controlado em regime ambulatorial.

Não se pode deixar de informar que o fato de alguns pacientes quererem demonstrar uma "melhora"
em seu quadro para, conseqüentemente, antecipar a sua alta seja um viés quando se analisa a variável craving durante uma internação hospitalar.

Também se imaginava que sonhar com o álcool seria um comportamento freqüente nesses indivíduos que até a véspera da internação consumiam bebida alcoólica diariamente, ou quase nessa medida.

Foi interessante constatar que os pacientes avaliaram seu sono na fase de desintoxicação como sendo de melhor qualidade do que o apresentado durante o consumo e que, devido a este ter interrupções em sua fase intermediária, favoreceu para que os sonhos fossem recordados.

O tema craving é comum de ser escutado na clínica do dependente químico e pode aparecer a qualquer momento, mesmo após um longo tempo em abstinência. Caso vença a luta contra o controle do indivíduo, poderá ser o desencadeador de uma recaída.

O problema é que, em grande parte das ocasiões, ele aparece sem aviso prévio, ou que os terapeutas,
juntamente com os pacientes, não conseguem detecta-lo a tempo, dificultando o seu manejo e diminuindo a auto-eficácia do sujeito que, com menos estratégias de enfrentamento, termina por sucumbir ao álcool.

Por isso, saber da associação entre sonhar com álcool e o craving nos fornece uma arma importante para detectarmos a presença dessa "vontade" antes que ela venha acompanhada de maiores prejuízos.

No caso de dependentes químicos, sabe-se que os sonhos ainda são pouco utilizados na clínica, principalmente entre os profissionais que trabalham com a Terapia Cognitivo-Comportamental.

Esta pesquisa não tem, portanto, a pretensão de esgotar a discussão dos resultados encontrados, mas
sim aprofundar o tema "sonhar com álcool e craving", de modo a suscitar o interesse para que novas investigações sejam feitas, tendo por foco os sonhos e sua utilização na área da dependência química.

 

 


Autor

 

Renata Brasil Araujo1
Margareth Oliveira
2
Luciane B. Piccoloto
3
Karen P.D.R Szupszynski
4

 

1Doutoranda em psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
2Professora doutora em Ciências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
3Mestre em Psicologia Clínica na PUCRS.
4Bolsista Auxiliar de Pesquisa do curso de Psicologia na PUCRS

Endereço para correspondência:


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Av. Ipiranga,
6681, Prédio 11 9.b, sala 932. 90619-900, Porto Alegre - RS, Brasil.

Obtido em:
de PsiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. Clinica volume 31 numero 2 ano 2004

pagina http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol31/n2/63.html

 

 


 

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