Este trabalho é uma continuidade da temática de dois outros aqui publicados anteriormente:
Drogadição: um jeito triste de viver (1994) e Drogadição: o tratamento na comunidade terapêuticaUm ambiente estruturado no qual indivíduos com transtornos por uso de substância psicoativa residem para alcançar a reabilitação. Tais comunidades são em geral especificamente destinadas a pessoas dependentes de drogas; elas operam sob normas estritas, são dirigidas principalmente por pessoas que se recuperaram de uma dependência, e são em geral isoladas geograficamente. As comunidades terapêuticas são caracterizadas por uma combinação de “teste de realidade” (através da confrontação do problema relacionado ao uso de droga do indivíduo) e de apoio dos funcionários e de co-residentes para a recuperação. Elas têm geralmente uma linha muito similar à dos grupos de ajuda mútua tais como Narcóticos Anônimos.Veja também:pensão protegida. (1995).
No presente texto o autor analisa aspectos psicossociais, clínicos e do tratamento da drogadição, com base em sua experiência profissional em uma comunidade terapêutica para dependentes de drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habitual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos.
Unitermos: drogadição; trabalho terapêutico; crescimento interior
Summary
Essay on social, psychological and clinical conditions in the treatment of the drug addiction
Tire author analyses the social, psychological and clinical conditions in the treatment of the drug addiction. Based in his professional experience in a therapeutic community for drug addict patients.
This paper continues the subject of two others Acre published: Drug addiction: a sad way lo live (1994) and Drug addiction: the treatment in the therapeutic community (1995).
Uniterms: drug addiction concepts; therapeutic work; inner growth
Informação Psiquiátrica - volume 15 - numero 4 - pp. 145 a 149 - ano de 1996
O presente trabalho deve ser entendido como uma continuidade da temática de dois outros textos aqui publicados anteriormente: Drogadição: um jeito triste de viver (Zago, 1994) [8] e Drogadição: o tratamento na comunidade terapêutica (Zago, 1995) [9] . O primeiro constatava que a dependência(F1x.2)Em termos gerais, o estado de necessidade ou dependência de alguma coisa ou alguém para apoio, funcionamento ou sobrevivência. Quando aplicado ao álcool e outras drogas, o termo implica a necessidade de repetidas doses da droga para sentir-se bem ou para evitar sensações ruins. No DSM-IIIR, a dependência é definida como “um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e psicológicos que indicam que uma pessoa tem o controle do uso da substância psicoativa prejudicado e persiste nesse uso a despeito de conseqüências adversas”. Equivale aproximadamente à síndrome de dependência da CID-10. No contexto da CID-10, o termo dependência refere-se de maneira geral a qualquer dos elementos da síndrome. O termo é freqüentemente usado como equivalente de adicção e de alcoolismo.Em 1964 uma Comissão de Peritos da OMS introduziu “dependência” em substituição a adicção e hábito10. O termo pode ser usado de maneira genérica em relação a todas as drogas psicoativas (dependência de drogas, dependência química, dependência do uso de substância), ou referir-se especificamente a uma droga em particular ou a uma classe de drogas (p.ex., dependência de álcool, dependência de opióide). Embora a CID-10 descreva dependência em termos aplicáveis a todas as classes de drogas, há diferenças entre os sintomas de dependência característicos das diferentes drogas.De forma não qualificada, dependência refere-se a ambos os elementos físicos e psicológicos. A dependência psicológica ou psíquica refere-se à vivência de controle prejudicado sobre o beber ou o uso da droga (veja craving, compulsão), ao passo que a dependência fisiológica ou física refere-se à tolerância e aos sintomas de abstinência (veja também neuro-adaptação). Em discussões de orientação biológica, dependência é freqüentemente usada com referência à dependência física apenas.Ainda no contexto psicofarmacológico, emprega-se também dependência ou dependência física num sentido mais limitado para referir-se exclusivamente ao desenvolvimento de sintomas de abstinência que seguem uma interrupção do uso de droga. Neste sentido restrito, a dependência cruzada é vista como complementar a tolerância cruzada, e ambas definições referem-se somente à sintomatologia física (neuroadaptação). de droga é uma tentativa enganosa de "cura" para encobrir uma profunda descrença e desvalorização do viver e, sobretudo, um projeto suicida pelos modos de ser da pessoa drogadicta. O segundo demonstrava que a tarefa primordial do trabalho terapêutico no hospital psiquiátrico é de estimular a reflexão com base num compromisso de mudanças assumido pelo paciente consigo mesmo e com a equipe técnica, de onde emerge uma genuína relação pedagógica e cujos resultados podem servir de subsídios à prevenção que pertence ao âmbito da ação educativa.
Portanto o objetivo agora é de apresentar considerações tanto dos conceitos quanto da terapêutica da drogadição como fenômeno humano, que não foram abordados ou detalhados nos textos mencionados.
Escritores de sensibilidade muitas vezes captam a essência da "alma" humana de forma cristalina, transparente. Inclusive, muitos deles desnudam o âmago do existente antes mesmo que os próprios estudiosos do comportamento humano. Em A insustentável leveza do ser, Kundera [3] pergunta: "Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?"
Kundera mesmo responde que peso/leveza é a mais ambígua e a mais misteriosa das contradições. No peso ou na leveza pode estar a realização do ser, porém pode significa um pesado fardo existencial ou uma leveza que afasta o ser de sua realidade
É freqüente pessoas dependentes de drogasDrogas, geralmente aquelas não-responsivas ao tratamento, racionalizarem, por exemplo, que a maconha é uma droga leve e a cocaínaUm alcalóide obtido das folhas de coca (Erythroxylon coca) ou sintetizado a partir da ecgonina ou de seus derivados. O hidrocloreto de cocaína era comumente usado como anestésico local em odontologia, oftalmologia e cirurgias de ouvido, nariz e garganta, dada a sua forte ação vasoconstritora que ajuda a reduzir as hemorragias locais.A cocaína é um poderoso estimulante do sistema nervoso central, usado sem indicação terapêutica para produzir euforia ou “ligação”; o uso repetido produz dependência. A cocaína ou “coca” é geralmente vendida como cristais brancos e translúcidos, ou em pó (“farinha” ou “pó”), freqüentemente adulterada com açúcares ou anestésicos locais. O pó é aspirado (“cheirado” ou “cafungado”) e produz efeitos imediatos (entre 1 a 3 minutos de latência) que duram em torno de 30 minutos.A cocaína pode ser ingerida oralmente, geralmente com álcool; os usuários de opióides e cocaína combinados geralmente os injetam por via intravenosa. Alguns elementos alcalinos (freebase) são utilizados para aumentar a potência da cocaína pela extração do alcalóide puro através da inalação dos vapores em cigarros ou narguilé (cachimbo de água). Uma solução aquosa de sal de cocaína é misturada com um álcali (como bicarbonato de sódio) e o extrato é obtido através de um solvente orgânico como o éter ou o hexano. O procedimento é perigoso uma vez que a mistura é explosiva e altamente inflamável. Um procedimento mais simplificado que evita o uso de solventes orgânicos consiste em aquecer o sal de cocaína com bicarbonato de sódio; isto produz o crack.O crack ou “pedra” é uma cocaína alcaloidal (básica), um composto amorfo que pode conter cristais de cloreto de sódio. É um composto de coloração bege. Crack refere-se ao som de estalido provocado quando o composto é aquecido. Um efeito intenso ocorre de 4 a 6 segundos após a inalação do crack. Um sentimento de exaltação e de desaparecimento de ansiedade é vivenciado, junto com um exagerado sentimento de confiança e auto-estima. Há também uma perturbação do juízo crítico e o usuário tende a cometer atos irresponsáveis, ilegais ou perigosos, sem se preocupar com as conseqüências.A fala fica acelerada e pode se tornar desconexa e incoerente. Os efeitos agradáveis terminam em torno de 5 a 7 minutos, depois do que o humor rapidamente muda para depressão e o consumidor é compelido a repetir o processo de forma a recuperar a euforia do ápice. A superdose parece ser mais freqüente com o crack que com outras formas de cocaína.A interrupção do uso contínuo de cocaína é geralmente seguida por uma crise que pode ser vista como uma síndrome de abstinência, na qual a exaltação dá lugar à apreensão, depressão profunda, sonolência e inércia.Podem ocorrer reações tóxicas agudas tanto no consumidor de cocaína principiante quanto no inveterado. Essas reações incluem delirium semelhante ao pânico, hiperpirexia, hipertensão (algumas vezes com hemorragia subdural ou subaracnóide), arritmias cardíacas, infarto do miocárdio, colapso cardiovascular, convulsões, estado de mal epiléptico e morte. Outras seqüelas neuropsiquiátricas incluem uma síndrome psicótica com delírios paranóides, alucinações visuais e auditivas e idéias de auto-referência. “Luzes na neve” (snow lights) é o termo usado para descrever alucinações ou ilusões que lembram o brilho do sol nos cristais de neve. Foram descritos efeitos teratogênicos, incluindo anormalidades do trato urinário e deformidade dos membros. Os transtornos por uso de cocaína estão entre os transtornos por uso de substâncias psicoativas incluídas na CID-10 (classificadas em F14). uma droga pesada. Há dependentes que defendem que aspirar cocaína é leve e que pesado é fumar crackVeja cocaína.. Há usuários de crack que afirmam, por sua vez, que fumar crack é leve; para esses pesado é injetar cocaína nasVeja teor alcoólico no sangue. veias. Os dependentes de cocaína injetável colocam que fazer tal uso com seringa individual e descartável é leve, evita a Aids; pesado é injetar com seringa de uso coletivo. Há alcoolistas que racionalizam que o álcoolNa terminologia química, os álcoois constituem um numeroso grupo de compostos orgânicos derivados de hidrocarbonetos que contém um ou mais grupos hidroxila (-OH). O etanol (ou álcool etílico, C2H5OH) é um dos membros dessa classe de compostos, e é o principal ingrediente psicoativo das bebidas alcoólicas. Por extensão, o termo “álcool” também é usado para referir-se a bebidas alcoólicas.O etanol resulta da fermentação de açúcar produzida por lêvedos. Em condições normais, as bebidas produzidas por fermentação têm uma concentração de álcool que não ultrapassa 14%. Na produção de álcoois por destilação, ferve-se uma mistura fermentada e o etanol que se evapora é recolhido como um condensado quase puro. Além do seu uso para consumo humano, o etanol é também usado como combustível, como solvente e na manufatura química (veja álcool impróprio para o consumo humano).O álcool absoluto (etanol anidro) é o etanol contendo não mais do que 1% de água por massa. Nas estatísticas sobre produção ou consumo de álcool, o álcool absoluto refere-se ao conteúdo de álcool (como 100% de etanol) das bebidas alcoólicas.Do ponto de vista químico, o metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico e álcool de madeira (ou de amido), é o mais simples dos álcoois. É usado como um solvente industrial e também como um adulterador para desnaturar o etanol e torná-lo impróprio para o consumo (bebidas metiladas). O metanol é altamente tóxico; dependendo da quantidade consumida, pode produzir turvação da visão, cegueira, coma e morte.Outros álcoois impróprios para o consumo, com efeitos potencialmente nocivos, são consumidos ocasionalmente, como, p.ex., o isopropanol (álcool isopropílico, freqüente em desinfetantes) e etilenoglicol (usado como anticongelante em automóveis).O álcool é um sedativo/hipnótico com efeitos semelhantes aos dos barbitúricos. Além dos efeitos sociais do uso, a intoxicação pelo álcool pode resultar em envenenamento e até morte; o uso excessivo e prolongado pode resultar em dependência ou numa ampla variedade de transtornos mentais orgânicos e físicos.Os transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool (F10) são classificados como transtornos decorrentes do uso de substância psicoativa na CID-10 (F10-F19).Veja também:cardiopatia alcoólica; cirrose alcoólica; dano cerebral associado ao álcool; delirium; encefalopatia de Wernicke; escorbuto; fígado gorduroso alcólico; gastrite alcoólica; hepatite alcoólica; miopatia relacionada com álcool ou drogas; neuropatia periférica; pancreatite alcoólica; pelagra; pseudo-síndrome de Cushing; síndrome amnésica induzida por álcool ou droga; síndrome de deficiência de tiamina; síndrome fetal alcoólica. é leve e que pesado é ser dependente de maconha ou de cocaína.
Quando vemos um adolescente fazendo uso de bebida alcoólicaLíquido que contém álcool (etanol) e é destinado a ser bebido. Quase todas as bebidas alcoólicas são preparadas por fermentação, que pode ser seguida – no caso dos destilados – por destilação. A cerveja é produzida através da fermentação de cereais (cevada maltada, arroz, milho, etc.) freqüentemente com a adição de lúpulo. Os vinhos são produzidos através da fermentação de frutas, particularmente de uvas. O Xerez, o vinho do Porto e outros vinhos fortificados são vinhos aos quais se adicionam certos destilados, habitualmente para obter-se um conteúdo de etanol de cerca de 20%. Outros produtos de fermentação tradicionais são o hidromel (a partir de mel), cidra (de maçã ou outras frutas), saquê (de arroz), pulque (do cacto agave) e chicha (de milho).Os destilados variam quanto à matéria prima (cereal ou fruta) da qual são derivados: por exemplo, a vodca é feita a partir de cereais ou de batatas; o uísque, de centeio ou milho; o rum, de cana de açúcar; e o conhaque, de uvas ou outras frutas.O álcool também pode ser sintetizado quimicamente (do petróleo, por exemplo), mas raramente tem-se usado isso para produzir bebidas alcoólicas.Inúmeros congêneres – constituintes das bebidas alcoólicas que não o etanol e a água – já estão identificados, mas o etanol é o principal ingrediente psicoativo em todas as bebidas alcoólicas comuns.As bebidas alcoólicas têm sido usadas desde a pré-história na maioria das sociedades tradicionais, exceto na Australásia, na América do Norte (logo ao norte da atual fronteira entre os EUA e o México) e na Oceania. Muitas bebidas fermentadas tradicionais tinham um conteúdo de álcool relativamente baixo e só podiam ser armazenadas por poucos dias.A maioria dos governos procura criar alvarás ou impostos especiais ou mesmo controlar completamente a produção e a venda de álcool, embora possa permitir a produção caseira de diversos tipos de bebidas alcoólicas. Em vários países, certas bebidas alcoólicas (principalmente destiladas) são produzidas ilicitamente, e podem se contaminar com substâncias tóxicas (chumbo, por exemplo) no processo de produção. em uma lanchonete, trata-se de um quadro cultural típico, usual, que não chama nossa atenção (mesmo que esse jovem seja menor e que o consumo de bebida alcoólica no caso é proibido por lei). E comum que esteja com amigos ou com a namorada. Suponhamos que essa ida à lanchonete possa ser algo rotineiro na vida do adolescente. Ninguém se preocupa. E normal!
Mas vamos supor também que esse jovem esteja vivendo uma dificuldade íntima de elaborar suas crises, suas vivências e a construção de sua identidade. O álcool pode então, gradativamente, ser usado de forma inconsciente como fator de grande alívio ou consolo, que deixa, por assim dizer, esse adolescente com a sensação de mais leve. Se prosseguir nessa caminhada, somente com 27 a 30 anos, já casado e com filhos, é que as pessoas mais próximas irão perceber que ele está dependente do alcoolismo. E ao atingir esse ponto de sua existência, mesmo alertado pelos seus pela falta de limites para com a bebida, provavelmente esse indivíduo rebaterá as críticas e continuará bebendo. É comum que pessoas com histórias de vida assim, em torno de 35 -40 anos, já tenham sido internadas por várias vezes em hospitais psiquiátricos. Se no início o uso de bebida alcoólica era um alívio, deixava leve, agora é um pesado fardo.
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Uma senhora, meia-idade, dedicada esposa e mãe. Vem sentindo há algum tempo nervosismo, insônia, palpitaçãoO termo palpitação designa a sensação de consciência do batimento do coração, que habitualmente não se sente., certa hipertensão e ansiedadeAnsiedade, ânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração etc.. Talvez, entre outras coisas, pelos fatos de os filhos estarem crescendo e procurando cada qual seu caminho. Essa mãe sente-se insegura e solitária em seu sofrimento. Vai ao médico. Este a examina e, entre outros medicamentos, lhe receita um tranqüilizanteUm agente calmante; um termo genérico para várias classes de drogas empregadas no manejo sintomático de várias doenças mentais. O termo pode ser utilizado para diferenciar estas drogas dos sedativos/hipnóticos: os tranqüilizantes têm um efeito calmante e redutor sobre os processos psicomotores sem interferirem com a consciência e o pensamento, a não ser em altas doses.O termo tranqüilizante é usado atualmente para designar qualquer droga usada no tratamento dos transtornos de ansiedade, sendo “tranqüilizante menor” um sinônimo. Esta expressão foi introduzida para distingui-las dos “tranqüilizantes maiores” (neurolépticos), empregados no tratamento de transtornos psicóticos. Entretanto, a expressão “tranqüilizante menor” tem sido usada para indicar erroneamente uma ausência de efeitos nocivos significativos. Devido ao potencial de dependência destas drogas, é melhor evitar essa expressão. para ser tornado ao deitar.
Começa a dormir melhor Percebe-se mais calma e tranqüila após algum tempo. Não retorna, entretanto, na época prevista ao médico, mas continua a usar o tranqüilizante. Dá um jeito de obtê-lo na farmácia do quarteirão onde mora. Determinada noite procura por seu calmante e vê que a cartela está vazia. Com isso entra em angústia. Passa vagamente em sua cabeça de que está dependente, porém de maneira automática afasta tal pensamento. Insiste que o esposo providencie imediatamente o `remédio'. Com o tranqüilizante nas mãos, após ansiosa espera, mesmo antes de tomá-lo, sente agradável leveza! A rigor uma insustentável leveza. Ou silenciosamente um pesado fardo?
A sociedade consumista, controlada pelos magnatas da produção que se utilizam à mídia, especialmente a TV, é hipócrita no que se refere às drogas.
A mesma sociedade que combate através da mídia o consumo de drogas ilegais como a maconha, a cocaína e o crack, induz, ao mesmo tempo, por esses mesmos meios de comunicação de massa, o consumo de drogas legais como o tabacoQualquer preparação das folhas da Nicotiana tabacum, uma planta nativa da América, Seu principal ingrediente psicoativo é a nicotina.Veja também:nicotina; fumar passivo., a bebida alcoólica e "medicamentos. Para cada tipo de problema, por exemplo, dor de cabeça, de estômago, nervosismo, insônia, calvície, impotência sexualA saúde sexual refere-se às áreas da medicina envolvidas com a reprodução humana e comportamento sexual, as doenças sexualmente transmissíveis, os métodos contraceptivos, anticoncepcionais, entre outros., obesidadeObesidade, nediez ou pimelose (tecnicamente, da língua grega pimelē = gordura e ose processo mórbido) é uma doença na qual a reserva natural de gordura aumenta até o ponto em que passa a estar associada a certos problemas de saúde ou ao aumento da taxa de mortalidade.Apesar de se tratar de uma condição clínica individual, é vista, cada vez mais, como um sério e crescente problema de saúde pública: o excesso de peso predispõe o organismo a uma série de doenças, em particular doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2, apnéia do sono e osteoartrite., esquecimento, etc., uma propaganda de "receita infalível" .
Mas que determina o legal e o ilegal? É a droga legal não prejudicial e a ilícita sim? E exatamente ai que a sociedade revela toda sua hipocrisia. [ 7 ]
Achar que o álcool por ser legalizado é inócuo ou que esses "remédios' assim induzidos não são prejudiciais, é fechar os olhos para uma questão muito séria. Não queremos, contudo, negar que a bebida alcoólica está enraizada em nossa cultura, como é o fato de camponeses bolivianos mascarem folhas de coca para suprir a fome e o cansaço. Porém vale sublinhar que boa parte dos leitos psiquiátricos do país é ocupada por pessoas dependentes ou com transtornos decorrentes do uso abusivo de alcoólicos. Ainda mais, de cada dez pacientes internados por dependência de drogas, considerando-se todas as drogas, oito são por etilismo. E os benzodiazepínicosUm grupo de drogas estruturalmente relacionadas, usadas primordialmente como sedativos/hipnóticos, relaxantes musculares e antiepilépticos, e outrora denominados de “tranqüilizantes menores”. Acredita-se que estes agentes produzam efeitos terapêuticos ao potencializar a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), um importante neurotransmissor inibidor.Os benzodiazepínicos foram introduzidos para substituir os barbitúricos, como uma alternativa mais segura. Eles não suprimem o sono REM na mesma medida que os barbitúricos, mas tem um potencial significativo para induzir dependência e uso indevido.Os benzodiazepínicos de ação curta incluem o halazepam e o triazolam, ambos com início de ação rápida; o alprazolam, o flunitrazepam, o nitrazepam, o lorazepam e o temazepam com início intermediário; e o oxazepam com início lento. Têm-se relatado amnésia anterógrada profunda (apagamento) e reações paranóides com o uso de triazolam, bem como insônia de rebote e ansiedade. Muito clínico tem encontrado problemas particularmente difíceis na interrupção do tratamento com o alprazolam.Os benzodiazepínicos de ação longa incluem o diazepam (com o mais rápido início de ação), o clorazepato (também de início rápido), o clordiazepóxido (início intermediário), o flurazepam (início lento) e o prazepam (início mais lento). Os benzodiazepínicos de ação longa podem produzir um efeito incapacitante cumulativo e tem maior probabilidade de causar sedação diurna e perturbações motoras que os agentes de ação curta.Mesmo em doses terapêuticas, a interrupção abrupta dos benzodiazepínicos induz uma síndrome de abstinência em até 50% das pessoas tratadas por seis meses ou mais. Os sintomas são mais intensos com as preparações de ação curta; com os benzodiazepínicos de ação longa os sintomas de abstinência aparecem uma ou duas semanas depois da interrupção e duram mais, mas são menos intensos. Como com outros sedativos, é necessário um programa de desintoxicação lenta para evitar complicações graves como as convulsões da abstinência.Alguns benzodiazepínicos têm sido usados em combinação com outras substâncias psicoativas para acentuar a euforia, por exemplo, ex., 40-80 mg. de diazepam tomados logo antes ou imediatamente após uma dose de manutenção diária de metadona. Os benzodiazepínicos são, com freqüência, usados de indevidamente em combinação com o álcool ou na dependência de opióides (veja uso de múltiplas drogas).A superdose fatal é rara com qualquer benzodiazepínico, a menos que ele seja ingerido concomitantemente ao álcool ou outro depressor do sistema nervoso central. são os medicamentos mais prescritos no mundo, inclusive com uso crescente e indiscriminado em serviços de saúde podendo com isso facilitar a dependência [ 6 ] . Além dessa situação, a venda desses medicamentos é fragilmente controlada, o que toma seu consumo sempre de risco para a saúde. E superar a dependência de benzodiazepínicos é tão ou mais complicado e custoso do que superar uma dependência de uma droga ilícitaUma substância psicoativa, cuja produção, venda ou uso são proibidos. Estritamente falando, não é a droga que é ilícita, mas sua produção, venda ou uso em circunstâncias específicas em uma dada jurisdição (veja substâncias controladas). “Comércio de drogas ilícitas”, um termo mais exato, refere-se à produção, distribuição e venda de qualquer droga fora dos canais sancionados legalmente.. E os sérios problemas clínicos que o uso do tabaco provoca em seus consumidores? Ainda temos de lembrar que os chamados solventesVeja substâncias voláteis., como a cola de sapateiro, são comercializados indiscriminadamente, onde crianças de sete a dez anos têm acesso, e para muitas é a primeira droga. E não devemos ter ilusões, como profissionais da saúde, de que cheirar colaVeja substâncias voláteis. é padrão de conduta exclusivo de meninos de rua.
Há algum tempo cogitou-se um projeto de lei cujo objetivo era de controlar a venda de tinta spray. Tal projeto, que não sobreviveu, visava apenas a proteger o patrimônio material (casas, muros, paredes) dos pichadores. E evidente que o patrimônio material deve ser preservado desse tipo de agressão, mas um projeto assim seria unilateral, sem a preocupação de um trabalho educativo dirigido à pessoa, ao cidadão.
Desse modo, mais uma vez essência e fenômeno são confundidos. Discute-se atualmente sobre não incriminar o usuário de maconha ou o porte da mesma para o consumo. E evidente que o dependente de droga necessita de ajuda. de apoio, de tratamento. Precisa ter, o drogadicto, um atendimento social e judicial diferente do traficante. Este é um sociopata que sobrevive através da doença do outro. E quando um indivíduo não é sensível ao sofrimento alheio, é mais justo que fique de fora do convívio social.
Uma preocupação, se aprovada a descriminação da maconha, é de que tal lei possa ser manipulada para relaxar prisão de traficantes. Outra preocupação. mais importante que a anterior, é a de que pais e educadores, com o decorrer do tempo, deixem de dar o devido peso à questão do uso dessa droga. Corre-se o risco da não incriminação da maconha ser entendida na prática como legalizaçãoMedidas legais que tornam legal um comportamento, um produto ou uma condição previamente considerados como crime.Veja também:descriminalização. pura e simples. semelhante como já ocorre com a bebida alcoólica que é proibida para menores. Mas quem lembra e respeita essa lei?
Dentro de nossa ótica as drogas legalizadas são potencialmente destrutivas porque só é possível perceber suas conseqüências nocivas a saúde após anos e anos quando do abusoabuso (de drogas, de álcool, de substâncias, de produtos químicos ou de substâncias psicoativas)Um grupo de termos muito utilizado embora com significados variáveis. Na 3a. edição revista do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (DSM-III-R), “abuso de substância psicoativa” é definido como “padrão desajustado de uso indicado pela continuação desse uso apesar do reconhecimento da existência de um problema social, ocupacional, psicológico ou físico, persistente ou recorrente, que é causado ou exacerbado pelo uso recorrente em situações nas quais ele é fisicamente arriscado”. Trata-se de uma categoria residual, ao qual é preferível o diagnóstico de dependência, quando for o caso. O termo “abuso” é algumas vezes utilizado de forma desaprovativa para designar qualquer tipo de uso, particularmente o de drogas ilícitas. Devido à sua ambigüidade, o termo não é usado na 10a. revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (exceto no caso de substâncias que não produzem dependência; veja mais adiante); uso nocivo e uso arriscado são os termos equivalentes na terminologia da OMS, embora eles geralmente digam respeito apenas aos efeitos físicos e não às conseqüências sociais. O emprego de “abuso” também é desestimulado pelo Escritório de Prevenção do Abuso de Substâncias dos EUA, embora expressões como “abuso de substâncias” sigam sendo amplamente utilizadas na América do Norte, para se referir, de modo geral, aos problemas do uso de substâncias psicoativas.Em outros contextos, o abuso já indicou padrões de uso não-médico ou não aprovado, independentemente das conseqüências. Assim, a definição publicada em l969 pela Comissão de Peritos da OMS em Dependência de Drogas foi “uso excessivo de droga, persistente ou esporádico, inconsistente ou sem relação com a prática médica aceitável” (veja uso indevido de álcool ou droga)., quando então muito pouco pode ser feito pela pessoa. E isso em considerável número de casos. O alcoolismo é o exemplo típico por excelência. Por isso podemos chamar as drogas legais de "lobo em pele de cordeiro.
Enfatizamos quanto a hipocrisia da sociedade cm relação às drogas: nem tudo que é legal é bom ou legítimo para o crescimento interior do ser. E inútil ilusão pensar que tudo que os produtores e a mídia estimulam sedutoramente é bom no sentido de unia genuína auto-realização. Ou seja, não se pode simplesmente entender que se o ilegal faz mal, então o legal é bom. Essa relação, salientamos, é totalmente falsa.
E importante, desse modo, que a pessoa desenvolva uma crítica que lhe permita escolher o que é significativo ao crescimento interior. A escolha é um posicionamento que legitima o ser, através da qual a pessoa confirma sua posição em direção ao seu desenvolvimento. Esse legitimar, esse autenticar, é no significado de que determinado objeto de consumo não está primordial e exclusivamente preenchendo um vazio interior, não estar usando como forma materializada de "solucionar" crises, cuja real elaboração deve estar dentre de si mesmo. Este é um dos mais importantes papel do ser como agente de transformação social: assumir posicionamento críticos e conscientemente responsáveis do que se quer, não se colocando assim passivo e alienado com mais um apenas no universo do consumismo.
Não podemos permanecer na ingenuidade de que leis e decretos isoladamente irão resolver os problemas humanos. Somos propensos, na maioria das vezes, a esperar que verdadeiros milagres ocorram para solucionar nossos problemas existenciais e de convivência humana. Deixemos
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nossa ingenuidade. Leis somente não diminuem sofrimentos e desesperos. É preciso sobretudo investir na formação educativa da pessoa e no controle ético dos governos.
Destacamos quatro sentidos sobre existência e drogadição:
Pessoas demasiadamente inseguras não têm um controle adequado de seus sentimentos e anseios. O ideal, sem atingir neuroticidade, é o equilíbrio entre certa segurança e certa insegurança. Vivenciamos segurança em determinadas situações, insegurança em outras. Isso é da chamada normalidade da vida. Contudo, ser seguro sempre, o tempo todo e em tudo é o risco de ingressar na onipotência.
Há uma maneira de lidar com a insegurança que também é de muito risco: a intenção de dominá-la exercendo um controle no mundo externo, ou seja, controlando pessoas, fatos, coisas. Essa forma controladora de lidar com a insegurança é uma tentativa de preencher um vazio emocional. E a necessidade de controlar tudo "no fora" para sentir-se pleno e seguro `no dentro. É um jeito muito ansioso de viver, pois precisa estar sempre aleita e atento para não perder o controle. Em outras palavras, é como a pessoa não ter seu eu desenvolvido, crescido, e para se perceber com um eu idealizado, capaz e forte, adiciona-se dependentemente a outros eus, aos semelhantes, para destes obter um significado de seu eu.
A necessidade de controlar a tudo e a todos requer um dispêndio enorme de energia psíquica, e muitas vezes física também, ao mesmo tempo em que esse desgaste é compensado com a energia tirada dos outros. Essa maneira de lidar com a insegurança lembra de algum modo os buracos negros: região do espaço-tempo de gravidade tão intensa quê suga ou absorve tudo à sua volta, nada deixando escapar nem mesmo a luz. No universo os buracos negros têm uma dinâmica de voracidade.
A pessoa controladora envolve-se com outras pessoas de um jeito tão intenso que anula em parte o outro, o próximo. Suga a todos e a tudo para si inclusive concretamente: soca pessoas, controla fatos e coisas, suga produtos químicos como solventes, bebida alcoólica, drogas, "medicamentos. Entre outros, absorve também dinheiro, sexo e trabalho.
A pessoa controladora ou insegura é insaciável, um eu sem fundo, sem respaldo próprio, sem valores firmados, pois sem isso não sente em si um singular e singelo eu. E fígurativamente um eu com uma boca grandiosa que abocanha a todo e a todos sugando vida psicológica das pessoas com as quais convive, como se elas fossem nada mais e nada menos que alimentos descartáveis ou extensões apenas desse eu.
No tecido social pessoas controladoras e ao mesmo tempo dependentes são como buracos existenciais que gradativamente aumentam destruindo também tecido saudáve].
A drogadição é a vivência do eu vazio porque o outro, o semelhante, está ausente. E a vivência do outro-negado, do outro- coisificado.
Em sua obra A imortalidade, Milan Kundera [4] questiona a maneira cartesiana e racionalista com que lidamos com a dor humana, principalmente a dor alheia é colocada tão distante e quando próxima procuramos torná-la passageira ou marginalizada:
"Penso, logo existo" é uma afirmação de um intelectual que subestima as dores de dente. Sinto, logo existo é uma verdade de alcance muito mais amplo e que concerne a todo ser vivo. Meu eu não se distingue essencialmente do seu eu pelo pensamento. Muitas pessoas, poucas idéias: pensamos todos mais ou menos a mesma coisa, transmitindo, pedindo emprestado, roubando nossas idéias um do outro. Mas se alguém pisa no meu pé, só eu sinto dor, O fundamento do eu não é o pensamento, mas o sofrimento, sentimento mais elementar de todos. No sofrimento nem um gato pode duvidar de seu eu único e intercambiável. Quando o sofrimento é muito agudo, o mundo desaparece e cada um de nós fica só consigo mesmo'.
Entretanto, para perceber que o outro sofre, é preciso que nossa capacidade de sentir dor esteja viva, plena. Não fluíamos, é evidente, da dor física. Falamos sim da dor humana, existencial. Falamos da tendência que nos impulsiona a solidariedade, a perceber que o outro sofre. Se há o embotamento dessa capacidade, as experiências do eu-sujeito e do nós-social tomam-se respectivamente suicidas e destrutivas. Assim, fica inviável qualquer projeto de vida, pois tais experiências omitem o semelhante. Qual a viabilidade de um projeto existencial se o outro estiver ausente?
Uma analogia pode ser estabelecida entre o Mal de Hansen e a drogadição.
A anestesia é um dos elementos mais importantes para o diagnóstico da hanseníase. O portador dessa doença apresenta, entre outros sintomas, a perda da sensibilidade à dor. Ausente esse referencial - a dor - o doente não pode avaliar adequadamente o nível de esforço, por exemplo, a que submete os seus membros afetados. Como não há dor, exige tanto a ponto de provocar fraturas, corte, contusões e até perdas de dedos e artelhos. Como resultado, um corpo mutilado, sem dor física, mas provavelmente repleto de dor emocional.
A função primordial do uso de drogas na sociedade é, antes de obter prazer, evitar o pensar às vezes pode ser doído, amargo. Todos nós temos momentos onde a existência nos coloca frente a frente ao nosso intimo. Temos que elaborar essas crises, pensá-las e sair delas crescidos. Contudo esses momentos podem ser dolorosos e angustiantes. Uma das formas de fugirir deles; já que de fato evitá-los é impossível, agimos simplesmente. Essa ação, desprovida do pensar ou da reflexão, torna-se de risco se a saída é um sugar de objetos. A droga pode estar entre esses objetos.
O uso de drogas é uma maneira de não-pensar ou em outras palavras de não-sofrer. Isso no significado da pessoa sentir como uma ameaça caminhar para seu crescimento interior. O uso de drogas é uma tentativa então de não sentir dor existencial. À medida que se estreita na dependência de drogas, a pessoa cada vez mais torna-se incapaz de perceber seu sofrimento e também daqueles que sofrem assistindo sua dor A pessoa drogadicta chega a um ponto de empedrar-se, isto é. nada sentir em si e dos acontecimentos significativos que ocorrem à sua volta apresentando uma postura de indiferença, de não-sentir. Sem esse parâmetro - a capacidade de sentir dor emocional - mutila-se existencialmente e muitas vezes fisicamente também. E o projeto suicida composto por pequenos suicídios ou suicídios parciais. Incapaz de sentir angústia pelo seu modo de vida, os outros, geralmente do grupo familiar, são os que acabam abraçando compulsoriamente seu sofrimento. Há um adoecer recíproco: se a droga lhe dá um prazer, a destruição entretanto é coletiva: da pessoa que se droga e daqueles que o amam.
Adição é um substantivo que significa inclinação ou apego por alguma coisa. O adjetivo adicto refere-se ao indivíduo severamente comprometido dependentemente de certa prática. Tal prática pode ser uma crença, trabalho, atividade partidária, etc. (SI,
Drogadicto significa o indivíduo que é escravo da droga; não que a droga, a rigor, o tenha transformado assim, mas por já ter uma propensão à dependência. Desse modo o termo drogadicto sepulta a errônea visão de que a droga é o agente
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causal da dependência e, ao mesmo tempo, resgata a pessoa como sujeito no sentido dele ser o agente, aquele que determina.
Dessa maneira a droga nada é. É somente um objeto inanimado que é adjetivado ou que ganha sentido apenas através da ação humana. É o ser solitário de si mesmo:evitando ou camuflando crises e evadindo de sua busca-encontro que pode provocar nos objetos externos, estimulado por uma sociedade que prioriza o consumismo como pseudo-solução questões mais intimas, cair numa postura doentia de apego ou de dependência para com pessoas e objetos Insatisfeita consigo mesma, não aceitando ser si mesma, a pessoa busca adições para ser diferente do que é, ou melhor, do que vem sendo. Com isso, sob efeito de uma droga, torna-se inautêntica, uma "outra" pessoa, alterada (alter = outro).
Se damos viver a um objeto, tal é revertido a nós mesmos, bem ou mal. Por exemplo, se é dado vida por certo período de tempo a uma caneta, ela torna-se instrumento valioso de trabalho. Se não lhe emprestamos vida, a caneta é objeto inanimado, não se move por si. Assim que dá vida ao objeto droga, o retomo é em destruição, morte. O drogadicto dá viver à droga e recebe em troca, como afirmamos, morte. Daí o fato de entendermos a existência drogadicta como um projeto suicida. Semelhante ao trabalho escravo que enriquece somente o senhor e empobrece cada vez mais o escravo em todos os sentidos.
E à medida que a dependência se estreita, mais aumenta a fascinação psicológica e química para com a droga. As drogas, é claro, não são substâncias inócuas quando ingeridas. Elas atuam no sistema nervoso central, aliado ao fenômeno da tolerânciaUma diminuição de resposta a uma dose de determinada substância que ocorre com o uso continuado da mesma. No consumidor freqüente ou de grandes quantidades de bebidas alcoólicas (ou de outras drogas), por exemplo, são necessárias doses mais elevadas de álcool para alcançar os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas. Tanto fatores psicológicos como psicossociais podem contribuir para o desenvolvimento da tolerância, que pode ser física, comportamental ou psicológica. Com respeito aos fatores fisiológicos, pode desenvolver-se tanto a tolerância metabólica como a funcional, isoladas ou conjuntamente. Aumentando-se a taxa de metabolismo da substância, o organismo pode ser capaz de eliminar a substância mais rapidamente. A tolerância funcional é definida pela diminuição da sensibilidade do sistema nervoso central à substância. A tolerância comportamental é uma mudança no efeito da droga como resultado de aprendizado ou de alterações ambientais. A tolerância aguda é uma acomodação rápida, temporária, ao efeito de uma substância após uma única dose. A tolerância reversa, também conhecida como sensibilização, refere-se a uma condição na qual a resposta a uma substância aumenta com o uso repetido.A tolerância é um dos critérios para a síndrome de dependência.: há necessidade de aumentar gradativamente a dose para obter-se o efeito desejado. Conforme isso avança, confirma-se a dependência. E sob efeito de uma droga a pessoa tem suas funções mentais e comportamento alterados.
A simples retirada da droga faz com que, geralmente, as alterações mentais e de comportamento sintomáticas da dependência sejam abolidas. Isso contudo não modifica a pessoa dependente. Tal explica o fato de que tratamentos objetivando apenas a desintoxicaçãoO processo pelo qual um indivíduo é afastado dos efeitos de uma substância psicoativa.Como um procedimento clínico, é o processo de afastamento da substância realizado de maneira segura e efetiva, de tal forma que os sintomas da abstinência são minimizados. O serviço no qual esse processo se dá é denominado de unidade ou centro de desintoxicação.Tipicamente, o indivíduo está clinicamente intoxicado ou já em abstinência no início da desintoxicação. A desintoxicação pode ou não envolver o uso de medicamentos. Quando os usa, o medicamento em geral é uma droga que apresenta tolerância cruzada e dependência cruzada em relação à(s) substância(s) usada(s) pelo paciente. A dose é calculada para aliviar a síndrome de abstinência sem induzir intoxicação e é gradualmente diminuída à medida que o paciente se recupera.A desintoxicação como um procedimento clínico implica que o indivíduo seja supervisionado até recuperar-se completamente da intoxicação ou da síndrome de abstinência física. O termo “autodesintoxicação” é usado algumas vezes para denotar a recuperação não assistida de um episódio de intoxicação ou de sintomas da abstinência. não têm resultados duradouros.
São comuns os chavões utilizados que evidenciam como a realidade é vista às avessas ou de forma invertida. Por exemplo
a) "O problema de K. é a droga.'
b) O álcool acabou com
c) "O problema de X. é o álcool."
d) "O que atrapalha W é a droga."
e) "A bebida malote X."
E preciso despertar a pessoa dependente no sentido de que se conscientize de sua realidade. Ou seja: abandonar a ilusão de sua passividade frente a pseudoconcreticidade da droga, assumindo-se como sujeito de sua história.
Sartre [ 5 ] resume fidedignamente a essência da obra de Soren Kierkegaard:
"a dor, a necessidade, a paixão, o sofrimento dos homens, são realidades brutas que não podem ser superadas nem modificadas pelo saber.. (...) Há, entre nós, psiquiatras e psicólogos que consideram certas evoluções de nossa vida íntima como o resultado de um trabalho que ela exerce sobre si mesma: neste sentido a existência kierkegaardiana é o trabalho da nossa vida interior - resistências vencidas e sempre renascentes, esforços sempre renovados, desesperos superados. malogros provisórios e vitórias precárias -enquanto este trabalho opõe diretamente ao conhecimento intelectual. (...) (A obra de Kierkegaard) pode ser compreendida com a morte do idealismo absoluto: não são as idéias que modificam os homens, não basta conhecer uma paixão pela sua causa para suprimi-la, é preciso vivê-la, opor-lhe outras paixões, combatê-la com tenacidade, enfim, trabalhar-se."
O trabalhar-se é a busca-encontro que cada um, momento ou outro do viver, se vê frente a frente ou mergulhado em sua própria subjetividade que pode ser fonte de renovação ou de desespero. Ai, nesses momentos, abrem-se possibilidades de descobrir limites, aspirações, esperanças e potencialidades. É de cada trabalho interior que se retorna mais humanizado, mais disponível para o semelhante. São nessas buscas que nos percebemos mais humanos e que nos aproximam mais do próximo. Cada qual superar suas próprias fraquezas, insignificâncias, descobrir-se desse modo humano, é sinal de crescimento, de ser forte.
É muito salutar aceitarmos o fato de que viver em sua essência é um fazer sempre, continuadamente. E importante descobrirmos que o significado do viver é precisamente aceitar que nele nada é definitivo, Só os que se julgam deuses, os onipotentes, têm ilusoriamente as definições e as certezas, O viver em essência não! Que seria então da dor, do desespero, das angústias, das perdas, do abandono se na vida fosse tudo definitivo?
É de fundamental importância que a pessoa pare de tornar drogas para poder refletir a fim de mudar seu existir, sua visão de mundo. A finalidade primordial do uso de drogas, como já afirmamos, é evitar o pensar, pois para o dependente pensar dói. E para recuperar-se o remédio principal é pensar, refletir Estimular o drogadicto a ser sujeito de sua história para que ele possa se angustiar e resgatar sua capacidade de sentir dor existencial, num sentido estrito dor emocional.
Deixar a dependência implica assim em suor e trabalho, construir um caminho próprio, correr o risco de ser si mesmo. De certa forma é menos trabalhoso ser alterado oti drogado, pois ser si mesmo requer responsabilidade. luta. perseverança. Por isso que se tratar é pensar para descobrir novo caminho. E garimpar um novo lugar no tempo. no espaço social e, acima de tudo, ser sujeito ou governo de si mesmo.
Portanto referir-se a drogas leves ou drogas pesadas é o que há de mais falso e enganoso. São termos criados para muitos justificar a si e aos outros a própria dependência minimizando-a.
A fundamental questão que levantamos é : ser ou não ser escravo de uma droga'?
Não existe escravidão pesada ou leve. Escravidão é uma
situação de estar à margem do poder de governar-se. Ser escravo é a rigor uma condição muito triste. E abrir mão de ser si mesmo.
A premissa básica para ajudar a pessoa dependente é ela estar disponível para receber ajuda. Aceitar a internação é um passo importante, contudo aceitar o tratamento e outro qualitativamente diferente, Se a pessoa não estiver disposta a repensar seriamente seu existir, a terapêutica não evolui ou avança até o limite de uma desintoxicação. Assim ficar apenas no hospital ou na comunidade terapêutica pouco resolve.
Se não há disponibilidade não adianta insistir pressionar. Somos limitados como profissionais de a saúde quando o paciente é lúcido. Há necessidade de a pessoa dependente tomar consciência de seu sofrimento, e devemos colaborar de maneira transparente nesse intento. É preciso que o dependente diga sim, que se disponha a ouvir. A saúde mental não é uma dádiva ou graça dada pelo terapeuta ou pela
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equipe técnica. A pessoa precisa querer ser saudável e para isso deve trabalhar esse objetivo.
Muitas vezes a negação. como mecanismo de defesa, é utilizada pelo paciente. permitindo, nesses casos, que `somente a droga seja tratada'. Tal lembra o conto A menina e os fósforos de Hans Christian Andersen [ 1 ] a pequena vendedora de fósforos risca palito por palito, a princípio para aquecer-se na noite fia. Mas a cada clarão tem visões reconfortantes, inclusive da avó já falecida; a cada luz de fósforo, uma esperança fugaz. Risca boa parte dos fósforos que possui. percebendo possibilidades de vida nova enquanto dura cada pequenina chama de luz. Na manhã do Ano Novo. dentre os que observam o cadáver da menina e os fósforos riscados, alguém indaga: "Ter-se-á querido aquecer?" Não! A menina sonhou com suas visões a cada chama de fósforo, porém a rigor morreu de frio! Somente sonhos é um caminho irreal e inatingível na região concreta do espaço-tempo.
Igualmente são os pacientes que tratam exclusivamente o corpo: apenas a desintoxicação é como riscar uma chance de vida nova. São pessoas que ao recuperarem sua forma física deixam o tratamento ou tentam convencer a si mesmos, a equipe, os familiares, enfim, os membros da comunidade terapêutica de que a dependência está superada. Esses pacientes são aqueles que apresentam os maiores riscos de recaídas e conseqüentemente de reintemações. Quase sempre são pacientes que na entrevista de admissão já querem determinar o tempo de internação e a `data da alta". São pessoas onipotentes que não sabem ouvir e que carecem de humildade, isto é. estão embotados dessas duas condições básicas para a mudança. Como resultado repetem sempre o mesmo fracasso. Não saber ouvir e ser arrogante são mecanismos utilizados para ignorar o terapeuta ou a equipe técnica,
Tratar é pensar no viver. E incluir o pensar entre a intenção e a ação evitando a impulsividade. E aprender ou reaprender a determinar o agir. possibilitando a ação pensada. refletida.
A comunidade terapêutica deve propiciar um clima ou uma cultura de tratamento, oferecendo e facilitando meios e instrumentos (grupos, reuniões comunitárias. comissões, tarefas. Atividades ocupacionais e recreativas, atendimento médico e psicológico individual, etc.) para a reflexão pessoal. respeito às regras de vivência e convivência no sentido do paciente pôr em prática um modo de ser construtivo e participativo na comunidade hospitalar
Assim o tratamento não é algo abstrato ou teórico. Não objetiva o paciente a descobrir causas de sua dependência. Muitas vezes procurar tenazmente as causas da dependência é como se fosse uma forma de adiar o fazer de práticas efetivas. Dificilmente descobre-se com certa exatidão a causa ou as causas. E mesmo que se venha a descobri-las, tal descoberta não muda a pessoa. Para a mudança a pessoa precisa colocar em prática seu projeto de vida: desenvolver respeito a si e aos outros., ser sincero, assumir compromissos e. principalmente . colaborar com a recuperaçãoA manutenção de qualquer forma de abstinência de álcool e/ou de drogas. O termo é particularmente associado com os grupos de ajuda mútua; entre os Alcóolicos Anônimos (AA) e outros grupos dos doze passos refere-se ao processo de atingir e manter a sobriedade. Posto que a recuperação é vista como um processo que dura toda a vida, um membro do AA é sempre visto internamente como um alcoólico “em recuperação”, embora o termo alcoólico “recuperado” possa ser usado fora do grupo. do outro. Esta é uma das melhores maneiras de recomeçar vida nova.
A alta hospitalar e o consenso entre equipe, paciente e família. E o consenso de que não há mais necessidade de uma proteção concreta para a pessoa. E o momento de continuar o tratamento em campo aberto, reassumindo a vida familiar e profissional. A pessoa deve estar conscientizada de que a alta hospitalar não resgata suficientemente a confiança dos familiares, de que é preciso paciência, suor e trabalho no cotidiano.
Desse modo o desligamento a pedido, a alta triunfante, a alta apressada são nítidos sinais de que o paciente não evoluiu no processo terapêutico. O momento da alta é, quando elaborada, um momento de dúvidas e de temor e. ao mesmo tempo, de esperança. Nesse caso a pessoa sabe que verdadeiramente, ao deixar o tratamento hospitalar, de fato começarão os reais problemas do dia-a-dia, um viver mais autêntico e sem artifícios, O que é uma empreitada trabalhosa, mas não impossível para o ser cuja escolha é de caminhar consigo mesmo um caminho nunca antes percorrido.
Autor
José Antonio Zago joseantoniozago@ig.com.br
Psicólogo Clínico do Instituto de PsiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. da Fundação Espírita "Américo Bairral", Itapira, SP
Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, SP
REFERÊNCIAS
1-ANDERSEN HC - Contos Imortais. Publicações Europa-América, 1974
2- KALINA E, KOVADLOFF S - [Drogadição:Indivíduo. Familia e Sociedade. Francisco Alves Ed.. Rio de Janeiro, 980.
3- KUNDERA M - A Insustentável Leveza do Ser. Rio Gráfica Ed.. Rio de Janeiro. 986.
4- KUNDERA M - Circulo do Livro, São Pauto, 1994.
5- SARTRE JP - Questão de Método. Ed. Abril Cultural. São Pauto, 973. •
6- VIDAL CE et al. - Uso de benzodiazepinicos em ambulatório de psiquiatria - Jornal Brasileiro de Psiquiatria - 42 [8] pp. 425-429. 1993.
7- ZAGO JA - Drogas: Condições Pisicossociais da Dependência. Ícone Ed.. São Pauta. 1988
8- ZAGO JÁ - Drogadição - um jeito triste de viver - Informação Psiquiátrica - 13 [4] pp. 155-158, 1994
9. ZAGO JA- Drogadição o tratamento na comunidade terapêutica - Informação Psiquiátrica - 14 (4) pp.133-137 - 1995.
Republicado: 06/Agosto/2007 - 17:18
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