A Inserção do Psicólogo no Trabalho de Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas

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Resumo: O presente trabalho discute a inserção do profissional de Psicologia no trabalho preventivo ao uso de álcool e outras drogas. Analisa os dados epidemiológicos disponíveis sobre o consumo de drogas no Brasil, que caracterizam o uso abusivo de álcool como um grave problema de saúde pública em nosso país. Mostra que, como em outras parcelas da população, o consumo de álcool e drogas por universitários demanda o desenvolvimento de trabalhos preventivos específicos, descreve uma oficina de redução dos riscos associados ao abuso de álcool por universitários e discute ainda os pressupostos das estratégias preventivas de redução de danos. Finalmente, salienta a importância da inserção do psicólogo nesse trabalho e de sua capacitação, não somente no que diz respeito à prática clínica, mas também à sua atuação no desenvolvimento de trabalhos preventivos.

 

Palavras-Chave: Psicólogo, prevenção, alcoolismo

The insertion of the psychologist in preventive works on the abuse of alcohol and other drugs

 

Abstract: The present work discusses the insertion of the psychologist in preventive works on the abuse of alcohol and other drugs. Brazilian epidemiological data on drug consumption are analyzed and alcohol abuse is characterized as a serious problem of public health in our country. It is shows that, as in other population segments, university students' alcohol and other drugs abuse requires the development of specific preventive actions. A workshop to reduce the harms associated to alcohol abuse in university students is described and the fundamental basis of harm reduction strategies are stressed. Finally, the work emphasizes the importance of the psychologist's insertion in this area and the imperative need of technically capacitating psychologists, not only with respect to clinical practice, but also to develop preventive actions.

Key Words: Psychologist, prevention, alcoholism.

Drogas, por quê?

O tema fascina os jovens, angustia os pais e preocupa os educadores. Os meios de comunicação veiculam, diariamente, informações sobre o assunto, muitas vezes num tom dramático, de catástrofe iminente. A literatura científica enfatiza a importância de se enfrentar a questão do abuso de substâncias através de medidas de prevenção adequadas. Por que o uso de drogas vem, cada vez mais, apresentando-se como uma questão do nosso tempo?

O consumo de substâncias psicoativas existe desde os primórdios da história do homem, em praticamente todas as culturas conhecidas. Curiosidade, desejo de transcendência, busca da imortalidade, do prazer, da sabedoria, são alguns dos motivos que aparecem, desde sempre, associados ao desejo por alguma droga.

Drogas ou substâncias psicoativas1 "... são aquelas que modificam o estado de consciência do usuário. Os efeitos podem ir desde uma estimulação suave causada por uma xícara de café ou chá até os efeitos ...produzidos por alucinógenos tais como o LSD..." (Seibel e Toscano Jr., 2001, p.1). Masur & Carlini (1989) definem drogas como substâncias que interferem com o funcionamento dos neurotransmissores, provocando alterações e distúrbios no comportamento.

Ao longo da história da humanidade, o uso de drogas insere-se em vários contextos. Desde o místico, associado aos rituais e à busca de transcendência, até o econômico, do qual a Guerra do Ópio e a economia paralela de países como a Colômbia são alguns exemplos (Totugui, 1988). Em nosso meio, praticamente todas as pessoas fazem uso de algum tipo de droga. Medicamentos, álcool e tabaco são drogas legalmente comercializadas. Cada cultura determina quais drogas devem ser consideradas legais e ilegais. Isso está mais relacionado a aspectos antropológicos e econômicos do que a morais ou éticos, ou mesmo aos efeitos ou características farmacológicas das substâncias em questão (Bucher, 1992).

O aumento verificado nos últimos anos no consumo de drogas dos países desenvolvidos é, sem dúvida, alarmante. Por um lado, o narcotráfico organizou-se de forma mais eficiente, expandindo a oferta de produtos; pelo outro, cresceu a demanda de psicotrópicos por uma parcela cada vez maior da população (Bucher, 1996).

A dimensão do problema no Brasil

Embora no Brasil o padrão de consumo de drogas não seja comparável ao que se verifica nos países desenvolvidos, sua evolução recente torna esse tema uma preocupação obrigatória dos profissionais da área de saúde.

O estudo mais amplo sobre o consumo de drogas no País (Carlini, Galduróz, Noto & Nappo, 2002) envolveu as 107 maiores cidades do Brasil (com mais de 200 mil habitantes). Foram entrevistadas 8.589 pessoas, com idades de 12 a 65 anos, de todas as classes sociais. Os objetivos desse estudo foram estimar a prevalência do uso e da dependência de drogas lícitas e ilícitas, além de avaliar a percepção da população sobre as drogas, a facilidade de obtê-las, seus efeitos e seus riscos.

Seus resultados retratam o comportamento dos brasileiros que moram nas grandes cidades: para o álcool, o uso na vida2 foi relatado por 69% dos sujeitos pesquisados e a prevalência de dependentes foi estimada em 11%, maior nos homens (17%) do que nas mulheres (6%).

Em relação ao tabaco, o uso na vida é de 41%, e o número de dependentes chega a 9% da população. A maconha já foi utilizada por 7% dos entrevistados, os solventes por 6% e a cocaína por 2% dos sujeitos estudados.

Chamam a atenção as diferenças de comportamento entre homens e mulheres. Embora todos sejam expostos da mesma maneira ao consumo de drogas, com o tempo, os homens passam a usar muito mais essas substâncias do que as mulheres. No caso do álcool, um em seis homens torna-se dependente. Já para as mulheres, essa razão é de uma para dezessete.

As drogas mais usadas pelos estudantes brasileiros

O estudo de Galduróz, Noto e Carlini (1997) reúne os resultados obtidos nos quatro levantamentos sobre o consumo de drogas psicoativas por alunos do ensino médio e fundamental em dez capitais brasileiras, realizados pelo CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) em 1987, 1989, 1993 e 1997.

Segundo esse estudo, o álcool é a droga mais amplamente utilizada pelos estudantes, muito à frente do segundo colocado, o tabaco. O uso de álcool tem início bastante precoce na vida desses jovens - cerca de 50% dos alunos entre 10 e 12 anos já fizeram uso dessa droga. O uso freqüente e o uso pesado3 vêm aumentando na maioria das capitais estudadas. Quase 30% dos estudantes já utilizaram bebidas alcoólicas até embriagar-se. No último levantamento (1997), 11% da população pesquisada relatou ter brigado e 19,5% faltado à escola depois de beber. Quando comparado a drogas como maconha, cocaína, heroína ou tabaco, o álcool é a substância cujo uso crônico leva a maior risco orgânico, entendendo-se como risco não só a probabilidade de ocorrência de problemas, mas também a sua gravidade (Masur & Carlini, 1989). Os principais danos orgânicos associados ao uso crônico de álcool são gastrite (em geral, é o problema que aparece mais cedo), aumento da pressão arterial, pancreatite, miocardite, hepatite e cirrose alcoólica, distúrbios neurológicos graves, alterações da memória e lesões no sistema nervoso central.

1 Embora o termo "droga" tenha um sentido mais geral, referindo-se a qualquer substância exógena que altere a fisiologia normal do organismo e os termos "droga psicotrópica" e "substância psicoativa" refiram-se especificamente àquelas substâncias que interferem com o funcionamento do sistema nervoso central, os três termos são utilizados normalmente como sinônimos.

2 Uso na vida: quando a pessoa fez uso de uma droga pelo menos uma vez em toda a vida (World Health Organization, 1980).

3 Uso freqüente : quando a pessoa utilizou droga seis ou mais vezes nos trinta dias que antecederam a pesquisa; uso pesado: quando a pessoa utilizou droga vinte ou mais vezes nos trinta dias que antecederam a pesquisa (World Health Organization, 1980).

 

AUTOR

Hilda Regina Ferreira Dalla Déa

Professora titular do Depto. de Psicologia do Desenvolvimento e coordenadora do Aprimoramento Clínico Institucional O Psicólogo e a Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas (PUC-SP).

Elcio Nogueira dos Santos, Erick Itakura & Tatiana Bacic Olic

Psicólogo(a), (as) aprimorando(a), (as)

Obtido em: Revista Psicologia Ciência e Profissão ANO 2004 VOLUME 24 NUMERO 1- ISSBN 1414-9893 p.108 - 115 http://scielo.bvs-psi.org.br/

 

"Uma concepção errada que prevalece tanto na profissão médica como no público leigo é que o tratamento da dependência química invariavelmente fracassa.  ...já é ponto pacífico que o melhor tratamento é uma combinação de terapias medicamentosas e psicossociais, aplicadas as duas em doses otimizadas" Veja + em: Abstinência e dependência quimica....

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