RESUMO: Em nossa sociedade moderna, o doente toxicômano é frequentemente dividido pelo dualismo obsessivo de nosso sistema de pensamento e de tratamento (dualidade psicossomática) que pretende confiscar-lhe o gozo da « falta de juízo ». Diante deste discurso, as sociedades tradicionais propõem uma outra concepção mais totalizante do sujeito-sofredor. Corpo, espírito e espiritualidade constituem um todo.
Através a apresentação sumária de um dispositivo original de tratamento da toxicomaniaUm termo de origem francesa para designar a dependência de drogas. baseadoUm termo genérico usado para denotar os vários preparados da planta de maconha (cânhamo), Cannabis sativa. Isso inclui a folha de maconha ou diamba (com variada sinonímia de gíria), o cânhamo-da-índia ou haxixe (derivado da resina dos extremos floridos da planta) e o óleo de haxixe.Na Convenção Única de Narcóticos e Drogas de 1961, a maconha foi definida como “as extremidades floridas ou frutificadas da planta de cannabis (excluindo as sementes e as folhas sem aquelas extremidades) das quais a resina não foi extraída”, enquanto que a resina da cânabis é “a resina bruta ou purificada, extraída da planta da cannabis”. As definições são baseadas na terminologia tradicional indiana como ganja (= cânabis) e charas (= resina). Um terceiro termo indiano, o bhang se refere às folhas. O óleo de cânabis (óleo de haxixe, cânabis líquida ou haxixe líquido) é um concentrado de cânabis obtido pela extração geralmente através de um óleo vegetal.O termo marijuana é de origem mexicana. Originalmente um termo usado para o tabaco barato (ocasionalmente misturado com cânabis), tornou-se um termo genérico para as folhas de cânabis ou a cânabis em geral, em muitos países. O haxixe, inicialmente um termo utilizado para a cânabis nas áreas do Mediterrâneo oriental, é hoje utilizada para a resina da cânabis.A cânabis contém pelo menos 60 canabinóides, muitos dos quais biologicamente ativos. O componente mais ativo é o delta 9-tetrahidrocanabinol (THC), o qual pode ser detectado na urina várias semanas após seu uso (geralmente após ter sido fumado), bem como seus metabólitos.A intoxicação pela cânabis produz sensação de euforia, leveza dos membros e geralmente retração social. Prejudica a capacidade para dirigir veículos bem como para executar outras atividades complexas que requerem habilidade; prejudica a memória imediata, o nível de atenção, o tempo de reação, a capacidade de aprendizado, a coordenação motora, a percepção de profundidade, a visão periférica, a percepção do tempo (a pessoa geralmente tem a sensação de passagem mais lenta do tempo) e a detecção de sinais. Outros sinais de intoxicação podem incluir ansiedade excessiva, desconfiança ou idéias paranóides em alguns e euforia ou apatia em outros, juízo crítico prejudicado, irritação conjuntival, aumento de apetite, boca seca e taquicardia. A cânabis às vezes é consumida com álcool, o que aumenta os efeitos psicomotores.Há registros de que, em casos de esquizofrenia, o uso da cânabis pode precipitar recaídas. Estados de ansiedade e de pânico agudos, e estados delirantes foram também relatados na intoxicação por cânabis; estes geralmente regridem em alguns dias. Os canabinóides são às vezes usados terapeuticamente para glaucoma e para as náuseas em tratamentos quimioterápicos do câncer.Os transtornos por uso de canabinóides estão incluídos nos transtornos por uso de substância psicoativa na CID-10 (classificados em F12)Sinonímia: ceruma; diamba; erva; fumo; liamba; maconha; suruma; marihuana; marijuana.Veja também:síndrome nolitiva. em uma aliança entre a medicina moderna e a medicina tradicional dos curandeiros amerindianos da região do Altiplano peruano, o autor se interroga sobre o caráter « sagrado » ou transcendente da conduta toxicomaníaca e tenta dezenhar os contornos de uma prática institucional e clínicaClínica médica, no Brasil, também conhecida como Medicina Interna e Clínica geral, é a especialidade médica que trata de pacientes adultos, atuando principalmente em ambiente hospitalar. Inclui o estudo das doenças de adultos, não cirúrgicas, não obstétricas e não ginecológicas, sendo a especialidade médica a partir da qual se diferenciaram todas as outras como Cardiologia e Pneumologia.No Brasil, o especialista em Clínica médica deve cumprir, além do curso de Medicina, dois anos de Residência médica.Em Portugal, trata-se de um termo actualmente a cair em desuso. Em sua substituição, surgiu a Especialidade de Medicina Geral e Familiar, mais abrangente e de natureza diferente. que leve em conta esta dimensão.
Palavras-chaves: toxicomania - sagrado- transcendência - medicina tradicional - instituição.
UMA EXPERIÊNCIA EFICAZ LONGE DE SER ÚNICA
A via chamânica, pela utilização da ayahuasca (guia de iniciação submisso ao ritual apropriado, muito preciso e muito complexo) oferece ao doente toxicômano levado por uma intensa experiência do divino, uma indução controlada de modificações dos estados de consciência, uma experiência direta do sagrado capaz de indicar-lhe o caminho de uma conduta definitivamente resolvida. L'ayahuasca introduz uma rutura de nível entre o « mundo do profano » e o « mundo sagrado », tornando possivel a passagem da ordem ontológica de um modo de ser para um outro. Aqui, « o mundo vem à existência » (Eliade). O Centro «Takiwasi » é apoiado por organismos de pesquisas (Instituto Francês de Estudos Andinos, Instituto das Medicinas tradicionais, Universidades de Lima e de Iquitos, etc.) e sustentado pela Missão Interministerial de Luta contre a DrogaUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habitual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos. e a Toxicomania (MILDT). Ele é hoje reconhecido pela sua surpreendente eficiência terapêutica (um inquérito epidemiológico efetuado no norte do Peru por psiquiatras peruanos dirigidos pelo Pr.Mário Chiappe (1976) sobre os resultados obtidos em cinco anos mostrou que os curandeiros obtêm 60% de sucessos no tratamento do alcoolismo).Outras experiências existem. Na Tailândia, no monastério Budista de Tham Krabok (Neubacher, 1978), os monges curandeiros Tudong tratam os doentes toxicômanos (heroínaVeja opióide.) há mais de quarenta anos. No Brasil a psiquiatra Sveltana Vasconcelos (1987) coordena o tratamento dos doentes toxicômanos com os mestres do Condomblé, religião Afro-brasileira que inclue no seu ritual , transes de « possessão » pelos deuses (os orixás, divindades intermediárias entre Deus e os homens ). Enfim, na India (Meijer, 1999), a técnica Vipassana (que significa « ver as coisas tais quais elas são »), é uma das técnicas de meditação (purificação mentalSaúde mental é um termo usado para descrever um nível de qualidade de vida cognição ou emoção ou a ausência de uma doença mental. Na perspectiva da psicologia positiva ou do holismo, a saúde mental pode incluir a capacidade de um indivíduo de apreciar a vida e procurar um equilíbrio entre as actividades e os esforços para atingir a resiliência psicológica. A Organização Mundial de Saúde afirma que não existe definição"oficial"de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjectivos, e teorias relacionadas concorrentes afectam o modo como a"saúde mental"é definida. http://www.who.int/whr/2001/chapter1/en/index.html, World Health Organization, 2001) mais antiga do país. É interessante notar que esta técnica é similar a um método japonês de tratamento das desordens mentais : a terapia Morita, elaborada pelo Doutor Masalake Morita do Colégio Médico de Oikekai (Morita, 1997) cujo princípio fundamental é o Arugamana (« ver e sentir as coisas tais quais elas são »)), é utilizada com sucesso há oito anos nos Centros penintenciários como método de reabilitaçãoNo campo relacionado ao uso de substâncias psicoativas, o processo através do qual um indivíduo com um transtorno por uso de uma dessas substâncias atinge seu máximo possível estado satisfatório de saúde, de funcionamento psicológico e bem-estar social [A Organização Mundial da Saúde define a reabilitação psicossocial como “um processo que facilita aos indivíduos deficientes, incapacitados ou inválidos a oportunidade de atingirem seu nível máximo de funcionamento independente em suas comunidades. Isso implica tanto a melhoria das capacidades individuais como a introdução de modificações ambientais a fim de proporcionar a melhor qualidade de vida possível aos indivíduo que tenham sofrido de uma doença mental, ou que tenham alguma deficiência de suas capacidades mentais que resulta em qualquer grau de incapacidade.” (WHO. Psychosocial rehabilitation: a consensus statement.Doc.: WHO/MNH/MND/96.2, Geneva, WHO, 1996)].A reabilitação segue uma fase inicial de tratamento (que pode implicar desintoxicação e tratamentos médicos e psiquiátricos). Compreende uma ampla variedade de abordagens, que incluem terapia de grupo, terapias comportamentais específicas para prevenir a recaída, participação em grupos de ajuda mútua , residência em uma comunidade terapêutica ou em uma pensão protegida, treinamento vocacional e emprego protegido. A expectativa é a de uma reintegração social na comunidade em geral. social de prisioneiros toxicômanos1. A introdução desta técnica está sendo também estudada em certas prisões dos Estados Unidos, do Reino Unido, de Taiwan, da Nova-Zelândia e do Nepal.
DA MEDICINA MODERNA À MEDICINA TRADICIONAL: CONFLITO ENTRE INTELIGIBILIDADES ?
A MANIFESTAÇÃO DO SAGRADO EM NOSSA SOCIEDADE
Entre estes dois polos da existência do doente toxicômano, por um lado a vida ritual (repetição do ato diante da resistência ao desejo imperioso de viver « outra -coisa »), e por outro a vida profana, existiria uma passagem? O sagrado é antes de tudo uma experiência de ordem emocional, afetiva, mas é também e sobretudo um sentimento íntimo de existência de « qualquer outro», como « radical e totalmente diferente » do mundo profano, uma intuição intensa de « qualquer coisa » além dos limites habituais da experiência humana, diferente da tradição religiosa. « E, diríamos, de uma natureza tal que ela é capaz de captar e emocionar de certa maneira a alma humana » (Otto).
Existe na nossa sociedade moderna completamente secularizada e determinista uma certa confusão, uma sorte de indiferença relativa que deixa, como notou Jeammet (MILDT, 2000), « o indivíduo livre consigo, -em face de suas contradições internas, de uma solicitação narcísica cada vez maior » , não obstante o aparecimento, por assim dizer, de um novo espaço do sagrado, entre outros : a « bioética », figura da « sacralização do corpo humano », mistura de inquietação e de fascinação pelos problemas éticos ligados às consequências do progresso científico, às novas definições da morte ou como meio de ultrapassá-la (manipulações genéticasDoenças congênitas (português brasileiro) ou doenças congénitas (português europeu) são aquelas adquiridas antes do nascimento ou até mesmo depois do mesmo, no primeiro mês de vida, seja qual for a sua causa. Dentre essas doenças, aquelas caracterizadas por deformações estruturais são denominadas usualmente por anomalias ou malformações congênitas.Malformação congênita é uma condição presente ao nascimento onde a hereditariedade não pode ser imediatamente excluída e não está necessariamente causando a anomalia que se apresenta . Pode ser definida portanto como qualquer defeito na constituição de algum órgão ou conjunto de órgãos que determine uma anomalia morfológica estrutural presente no nascimento por causa genética , ambiental ou mista.Essa definição abrange todos os desvios em relação à forma, tamanho, posição, número e coloração de uma ou mais partes do corpo capazes de ser averiguadas macroscopicamente ao nascimento e/ou por ser discreta que não tenha sido verificada na ocasião em que a criança nasceu e só se manifeste clinicamente mais tarde.Nesse sentido não se distingue de"erros inatos do metabolismo","enfermidades genéticas"ou"doenças congênitas"no sentido amplo de desvios do estado de saúde devido total ou parcialmente à constituição genética do indivíduo, embora a condição de deficiência (handicap), mesmo associado às malformações graves (com perda de função da área afetada), não correspondem exactamente à noção de ausência de saúde.Essas doenças, caso não sejam visíveis, podem ser descobertas através do"teste do pézinho", testes de screening (triagem) neonatal nos quais é recolhida uma gota de sangue do calcanhar do bebê (normalmente entre o quarto e o sétimo dia de vida). São exemplos de doenças congénitas os erros inatos do metabolismo tipo : fenilcetonúria, tirosinemia e homocistinúria., possibilidade de clonagem, etc.).
Mas essas interrogações de grande amplidão moral, quase « metafísicas» e que abalam os fundamentos de nossa sociedade (lembrêmo-nos da emoção da comunidade científica mundial e política provocada pelo anúncio feito nos Estados Unidos pela seita dos « raelianos» do nascimento do primeiro bebê por clonagem, sem que tivesse havido confirmação pelos testes généticos) são também marcadas pela amnésiaPerda ou perturbação da memória (completa ou parcial, permanente ou temporária), atribuível tanto a causas orgânicas como a psicológicas. A amnésia anterógrada é a perda da memória de duração variável para eventos e vivências subseqüentes a um incidente causal, após a recuperação da consciência. A amnésia retrógada é a perda da memória de duração variável para eventos e vivências que precederam um incidente causal.. Desta forma, Ferry nos diz (p. 127, 1996), « tudo se passa como se o sentimento do sagrado, apezar da « morte de Deus », subsistisse sem que a espiritualidade ou a sabedoria que os acompanhasse nos fossem dadas». Este problema, de uma grande complexidade, ultrapassa nossa competência, mas se quisermos dar « significação» à experiência do terror, do inominável ou « ao impossível do suportar », então nossa medicina moderna, marcada por seu dualismo que cinde o homem em alma (espírito) e corpo, deve :
Abrir-se mais ainda às novas vias interpretativas ou de tratamento do infortúnio. Referímo-nos aqui à admiração atual pelas medicinas ditas « complementares » em geral oriundas da China (acupunturaAcupuntura ou Acupunctura é um ramo da Medicina Tradicional Chinesa e um método de tratamento considerado complementar de acordo com a nova terminologia da OMS - Organização Mundial da Saúde. Acupuntura consiste na aplicação de agulhas, em pontos definidos do corpo, chamados de"Pontos de Acupuntura"ou"Acupontos", para obter efeito terapêutico em diversas condições. Atribui-se o nome"Acupuntura"a um jesuíta europeu que retornando da China, no século XVII, adaptou os termos chineses"Zhen"e"Jiu", juntando as palavras latinas"Acum"(agulha) e"Punctum"(picada ou punção). A tradução literal do termo chinês, no entanto, é bem diferente. O correto seria Zhen (agulha) e Jiu moxa ou seja"longo tempo de aplicação do fogo". A tradução causa a impressão de que o terapeuta só trabalha com agulhas. Os pontos e Meridiano (acupuntura) também podem ser estimulados por outros tipos de técnicas. Na verdade, os pontos de Acupuntura podem ser estimulados por agulhas, dedos (acupressão), stiper (do inglês Stimulation and Permanency - Estimulação Permanente), ventosa ou pelo aquecimento promovido por moxa ou seja, longo tempo de aplicação do fogo", - um bastão de Artemísia (botânica) em brasa, que é aproximado da pele para aquecer o ponto de acupuntura. Há, também, o método de estimulação por laser, ainda em estudos., qigong, o shiatsu, etc.) e à medecina indiana, « l'AyurvedaAgarjuna at Samye Ling Monastery.JPG, um seguidor de Buda, foi um famoso fitoterapeuta que descobriu diversas fórmulas para o tratamento de doenças]] Ayurveda é o nome dado à"ciência"médica desenvolvida na Índia há cerca de 7 mil anos, o que faz dela um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade. Ayurveda significa, em sânscrito, Ciência (veda) da vida (ayur). Continua a ser a medicina oficial na Índia e tem-se difundido por todo o mundo como uma técnica eficaz de medicina tradicional. No Brasil é praticada por fisioterapeutas. A medicina ayurvédica é conhecida como a mãe da medicina, pois seus princípios e estudos foram a base para, posteriormente, o desenvolvimento da medicina tradicional chinesa, árabe, romana e grega. Houve um intercâmbio de informações com o Japão, que tinha a mesma necessidade dos indianos: criar uma medicina barata para atender às suas populações muito pobres e gigantescas, por essa razão existe muito da medicina japonesa nos conceitos de ayurvédica. As duas desenvolveram técnicas muito eficientes e de baixo custo para o tratamento. A doença, para a Ayurveda, é muito mais que a manifestação de sintomas desagradáveis ou perigosos à manutenção da vida. A Ayurveda, como ciência integral, considera que a doença inicia-se muito antes de chegar à fase em que ela finalmente pode ser percebida. Assim, pequenos desequilíbrios tendem a aumentar com o passar do tempo, se não forem corrigidos, originando a enfermidade muito antes de podermos percebê-la. » (yoga, terapias « espirituais», etc.) cuja eflorescência e suas implicações sociais lançam um sério desafio à visão científica do mundo;
Reconciliar-se de maneira autêntica (o termo é aqui sinônimo da noção de «presença », o ato de don do terapeuta que consiste em poder tornar-se totalmente disponivel à dor « moral » de seu próximo) pelo sentimento de uma transcendência inscrita na imanência da subjetividade humana, no próprio coração do homem.
A Instituição - este domínio que não deveríamos qualificar de profano nem reduzí-lo a um espaço do sagrado -, deve permitir este jogo de reconciliação. Ela é, para nós, uma experiência doadoara de sentido, « de acontecimentos que depositam em mim un senso », o « apelo a uma sequência», à « exigência de um futuro » (Merleau-Ponty, 1968). A Instituição enquanto lugar onde pode-se manifestar e ocorrer « qualquer coisa » aparece então como um espaço privilegiado ao aparecimento de « qualquer-outro » (Otto), espaço de encontro e de confrontação com o rosto (e o corpo) do outro. Mas nossa instituição no sentido atual da palavra (Rojas Urrego, 1991) - à qual somos constantemente confrontados na nossa prática clínica cotidiana, fundamento mesmo do encontro e que sustenta os méritos e a diversidade de terapias possuindo seus próprios sistemas de « valores » (Widlöcher, 1996) - deve responder doravante ao que os doentes toxicômanos instituem, isto é, uma nova forma de « relação ao mundo » e ao sagrado. Teria ela os meios de atingir esses objetivos, como afirmam e reivindicam os « práticos tradicionais ?
A CURA, UMA » CRENÇA « DIVIDIDA »
O « prático tradicional »( geralmente um curandeiro, um fitoterapeuta, etc.) com a sua medicina tradicional, dá à « desordem» (Hell, 1999) que se manifesta, diferentes maneiras de compreender a doença e, por conseguinte, o processo de cura que a acompanha . As terapias tradicionais são em grande parte influenciadas pela cultura e as condições históricas e sociais nas quais sua evolução começou. Isto leva inevitavelmente ao problema de suas « avaliações», princípio de objetividade e de rigor científico para a nossa sociedade moderna (pesquisas sobre a inocuidade e a eficiência destas práticas e a qualidade dos medicamentos tradicionais à base de plantas). Elas têm uma pressuposto comum: começam com um enfoque holístico da vida onde o corpo se apresenta como um teatro de forças opostas, até mesmo contraditórias, que interrogam e interpelam o terapeuta. Neste enfoque, « a doença resultaria, seja de uma espécie de afecção material externa au corpo do doente (concepção materialista), seja de uma força misteriosa emanando dos deuses e se transmitindo aos seres, aos homens e às coisas com as quais ela entra em contacto (concepção dinâmica), ou enfim de um ser demoníaco que toma possessão do corpo do doente (concepção espiritualista) » (Costa e Silva). A doença torna-se então a « metáfora» (Sontag, 1979) de um conflito moral, « o ato de curandeirismo », uma crença do doente nos poderes rituais de cura do « prático tradicional »: « o doente compreende a sua doença, integra-a num conjunto coerente que é o da ordem de sua cultura, e ele cura» (Vazeilles, 1991). A eficiência terapêutica vai depender do sistema de interpretação que define ao mesmo tempo o doente e sua doença, ou seja modos de pensar e crenças que cada sociedade elabora através suas representações simbólicas da existência.
As reticências, pelo menos a hostilidade que conhece a prática do « curandeirismo » no pensamento da medicina moderna decorre sobretudo de um « ceticismo ignorante» e do medo de ver destronado o pensamento moderno ou científico (racional, frio e desencarnado) submisso à crítica que privilegia uma construção particular do Mundo, a de um « mundo sagrado» e humanista («rico e sensível ») capaz de dar sentido à vida humana. A oposição parece à primeira vista radical, mas esta impressão tornou-se caduca. Na verdade, ela esconde um debate eternamente novo (procurado ou obrigado) como prova o crescimento atual do interesse da Comunidade científica e das instituições oficiais como a Organisação Mundial da Saúde (OMS, 2002) e a União Européia2 por estas práticas terapêuticas que escapam aos cânones da medecina científica. A medicina moderna propõe uma afinidade mais real e complementar (até mesmo indissociável), longe do « otimismo racionalista» e de suas idéias preconcebidas, que expõem, em termos complexos, a medicina moderna à seus proprios limites : a hora é ao « pragmatismo terapêutico ». Mas o saber não pode se reduzir ao conhecimento objetivo e científico, é preciso ajuntar-lhe uma experiência interior, espiritual de um « não-representável », capaz de ser dividida e mediada por um Outro (a alteridade, investida de um poder, em posição de mediador entre o mundo conhecido e o mundo desconhecido) e de possibilitar abertura e disponibilidade. A cura (qualquer que seja seu pressuposto ético) para realizar-se deverá assim ser oferta por uma pessoa a uma outra como una « dádiva », que se trate de curandeiro, médico ou psicólogo.
Na verdade, existe neste caso um afastamento do olhar de si para um outro frequentemente mal compreendido, uma atenção mais acentuada pela escuta empática do sujeito-sofredor, cuja importância, no plano institucional, ético e terapêutico é primordial e decisiva: trata-se de colocar por trás do encontro, « antes mesmo do princípio da continuidade dos cuidados» como disse Chaigneau (1983), « o princípio dos princípios, o da continuidade da existência do sujeito». O sujeito, este "ser do homem considerado em sua globalidade e não sob um único aspecto e no qual (segundo Binswanger, 1971, com sua argucia habitual) deverà ser despertada ou ateada "a chama divina" que sò se pode tornar efetiva "no âmbito duma comunicação autêntica de existência a existência cuja claridade e calor fossem o unico meio, no fundo, capazes de liberar o ser do seu isolamento cego do idios cosmos, segundo Heráclito, isto é da vida ordinària" e então "elevà-lo e libertá-lo para que ele possa participar do Koinos cosmos, da vida da Koinomia3 verdadeira ou da comunidade".
A problemática do doente toxicômano, como estamos mostrando aqui, ultrapassa o quadro geral de uma lógica da ciência (no sentido das ciências da natureza) e da psicologia « moderna » (científica, experimental), ela representa no fundo uma inquietação metafísica contemporânea, este « espírito « chamânico( de transe) (Perrin, 1992) que alguns tentam recobrar desesperadamente. Quando nos engajamos numa relação fraternal com a sua alteridade dominada pela dimensão da transcendência ou pelo « inconsciente espiritual», para retomarmos o termo de Frankl (1973),o doente toxicômano inaugura assim um novo modo de relação cujo sentido não é « ser ou não ser» mas encontrar-se no ser que temos a responsabiidade de acolher, mas de outro modo » (esta expressão entende-se aqui como a resposta do sujeito toxicômano abalado com a perda do sentido neste mundo profano). Isto implica, no fundo, dar uma prioridade ao outro, criar « as condições de uma « presença do outro », para que a alteridade faça irrupção enquanto experiência, no sentido forte do termo» (Ducousso-Lacaze, 2001).
Para realizar esta tarefa, o terapeuta deverá propor ao doente toxicômano preocupado com o sentido de sua existência, não uma espiritalidade à sua altura, mas - e nós encontramos outra vez Frankl num de seus mais esclarecedores e importantes discurso, -a escolha de um engajamento livre, isto é a responsabilidade4 de um sentido que ele dará à sua existência. Os desafios que ele lança às nossas instituições « modernas » são, por conseguinte, consideráveis e muito complexos : as instituições têm a imensa tarefa de integrar o doente toxicômano e sua « crise de presença no mundo » num projeto comunitario, o dever moral de elaborar uma reflexão sobre o próprio estatuto do conhecimento levando em conta a inserção do homem em seu universo.
CONCLUSÃO
O doente toxicômano convida-nos a ser mais humildes.Na hora do crespúsculo da transcendência (ou de sua nova adaptação à nossa sociedade desacralizada), ele questiona, pela sua tentativa de reconhecimento de um sentido superior à sua própria existência (aqui a droga se manifestando sob a forma de uma hiérophanie, termo proposto por Eliade, para designar uma irrupção do sagrado num mundo vivido como caótico), à relação que temos com o Mundo, os Seres, as Coisas. Seu gesto « desarrazoado » interroga nossa prática e- ao fim desta reflexão -, incita-nos a repensar a noção de terapeuta e com ela, o conceito de psicoterapia. Se a palavra grega ò thérapeutês significa em seu seu senso original e histórico « o servidor da casa » como nos diz Jonckheere (1985), então o terapeuta é antes de tudo um servidor. Um servidor da casa. Mas sua missão é sagrada porque « ele vela para que ela seja « aberta aos deuses» : o objetivo final da terapia sendo que o paciente possa « abrir-se mais a seu corpo, a si, ao mundo e ao ser». Temos pois uma humilde missão porque somos servidores mas esta missão é também prestigiosa porque temos como profissão a de tornar novamente possivel, a entrada dos « deuses na casa dos homens ».
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Chiappe. M. El empleo de hallucinogenos en la psiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. folkorica. Boletin de la Oficina Sanitaria Panamericana 1976 ; 81 ; 2 : 17 6-186.
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Autor
Por - M.Singainy Erich H-Daniel
Psicólogo clínico
Serviço de adictos do Grupo Hospitalar Sul Reunião BP 350
97448 Saint-Pierre Cedex
Tradução : Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO
Obtido em: pagina http://www.polbr.med.br/ano05/fran0605.php#3
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- Alterações hematológicas ligadas ao alcoolismo
- Naltrexona (Revia®):
- Prevenção: dicas para os pais manterem seus filhos longe das drogas.
- Uso, abuso e dependência de cocaína
- Abstinência e dependência quimica
- Legislação que estabelece regras paras as clinicas e comunidades terapêuticas resolução - rdc nº 101, de 30 de maio de 2001



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