A Criação do Centro de Atenção Psicossocial Espaço Vivo

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Resumo: Este artigo trata do processo da reforma psiquiátrica brasileira, a partir dos anos 80, que levou ao surgimento de serviços alternativos em saúde mental. Mais especificamente, aborda a criação e organização do Centro de Atenção Psicossocial Espaço Vivo, de Botucatu-SP, que ocorreu a partir das transformações no atendimento aos pacientes psicóticos do Hospital Professor Cantídio de Moura Campos. Faz reflexões sobre a importância do trabalho em equipe e do respeito à singularidade e subjetividade dos envolvidos nesse processo de mudança da forma de atendimento ao sofrimento mental.

Palavras-Chave: Centro de atenção psicossocial, saúde mental, serviços alternativos, equipe interdisciplinar, reforma psiquiátrica brasileira.

 

The creation of the psychosocial attention center "living space"

Abstract: This article deals with the process of the Brazilian psychiatric reform, since the 80's, that led to the implementation of the alternative services in mental health. It discusses more specifically the creation and organization of the Psychosocial Attention Center "Living Space" of Botucatu-SP, Brazil. This was possible due to the transformations in the care of psychotic patients of "Professor Cantídio de Moura Campos" Hospital. It considers the importance of team work and the respect to the singularity and subjectiveness of the ones involved in the process of changing the attendance of mental suffering.
Key Words: psychosocial attention center, mental health, alternative services, interdisciplinary team, Brazilian psychiatric reform.


Este artigo pretende relatar o processo de criação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Espaço Vivo de Botucatu, cidade do interior paulista, de gestão pública estadual. Na primeira parte, será abordada a reforma psiquiátrica brasileira e as transformações ocorridas nas políticas de saúde mental que acabaram por levar à criação de serviços de saúde mental substitutivos às internações psiquiátricas e que lhes serviram de inspiração. Depois, será narrado o processo de criação do CAPS Espaço Vivo, do qual o autor foi participante, e sua inserção nesse processo de mudança na atenção à saúde mental.

Abordaremos a reforma psiquiátrica brasileira, especialmente a partir das décadas de 70 e 80, quando houve alterações mais substanciais na atenção à doença/saúde mental. Para um entendimento mais aprofundado das mudanças pelas quais passou a Psiquiatria desde seu início, seja no mundo seja no Brasil, sugerimos os trabalhos de Amarante (1998), Rezende (1987) e Tenório (2002).

Reforma psiquiátrica no Brasil

Podemos sintetizar que, no Brasil, a atenção aos transtornos mentais inicia-se com a criação do Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1852, que, até o final da 2ª Guerra Mundial, teve uma trajetória higienista. Esta surgiu, segundo Machado et al. (1987), como um projeto de medicalização do social, no qual a Psiquiatria aparece como um instrumento tecnocientífico de poder, em uma Medicina que se autodenomina social. A prática dessa atenção constitui-se num auxiliar da organização social e das cidades que surgiam, de controle político e social, segundo Birman (1978), uma Psiquiatria da higiene moral.

A partir do final da 2ª Guerra, principalmente na Inglaterra, França e Estados Unidos, mas também em outras partes do mundo, inclusive em países não ligados diretamente à guerra, surgem experiências socioterápicas no tratamento de transtornos mentais. Os hospitais psiquiátricos da época não estavam conseguindo cumprir sua função de recuperação dos pacientes. As causas eram a superlotação, a pequena quantidade de funcionários, a falência das propostas de tratamento existentes ou a própria ausência de qualquer proposta terapêutica. Somavam-se a tais fatores a necessidade de se recuperar um grande número de homens jovens que tiveram danos psicológicos com a guerra e a falta de mão-de-obra para o trabalho. As experiências surgidas foram, principalmente, a comunidade terapêutica inglesa, a Psiquiatria de setor francesa e a Psiquiatria preventiva comunitária norte-americana. Estas acabaram por levar a Psiquiatria à construção de um novo objeto - a saúde mental, e não mais a doença mental.

Os objetivos da comunidade terapêutica eram a transformação do ambiente e do tratamento dos hospitais psiquiátricos pela "terapêutica ativa" ou terapia ocupacional. Esta foi criada por Hermann Simon, na década de 20: "a necessidade de mão-de-obra para a construção de um hospital faz com que Simon lance mão de alguns pacientes considerados cronificados e observa efeitos benéficos em tal iniciativa" (Amarante, 1998, p. 28). Surge a crença e objetiva-se a reabilitação dos doentes mentais através do trabalho e da socialização por intermédio de atividades grupais e de maior participação dos pacientes em seu tratamento. O mais importante adepto dessa terapêutica foi Maxwell Jones, na Inglaterra, a partir de 1959.

A Psiquiatria de setor iniciou-se, na França, a partir de 1945, através de vários psiquiatras progressistas, principalmente Lucien Bonnafé. Tinha como objetivo estruturar um serviço público de ajuda e tratamento por meio da criação de equipes de atendimento multiprofissionais (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros) que se responsabilizariam por uma determinada área geográfica, com a proposta de realizarem prevenção e tratamento das doenças mentais junto à comunidade, criando cuidados específicos segundo as demandas locais. Assim, a internação seria apenas uma etapa transitória no tratamento. A Psiquiatria de setor procurou romper com a estrutura alienante dos hospitais psiquiátricos, bem como evitar a segregação e o isolamento do doente. A partir de 1960, na França, foi incorporada como política oficial de saúde mental.

A Psiquiatria preventiva comunitária surge nos Estados Unidos, nos anos 70, originada do cruzamento da psiquiatria de setor e da comunidade terapêutica. Foi rapidamente adotada como política oficial de saúde mental naquele país e levou a um deslocamento da doença para a saúde mental no sentido de se combater tudo o que, na sociedade, pudesse interferir no bem-estar dos cidadãos. O preventivismo estava baseado nos estudos de Gerald Caplan e seu livro Princípios de Psiquiatria Preventiva (editado no Brasil, em 1980), onde havia a idéia de que os problemas de saúde e os problemas sociais seriam diminuídos ou até mesmo superados por intermédio da participação, da auto-ajuda e de oportunidades sociais. Aquele autor defendia a crença de que as doenças mentais podem ser prevenidas, se detectadas precocemente, e ressaltava que, se estas significam desvio e marginalidade, poder-se-ia, assim, prevenir e erradicar os males da sociedade por essa prevenção. Passa-se, enquanto objetivo maior, à identificação de pessoas potencialmente doentes, indo às ruas, às casas, para identificar aqueles que, por seu estilo de vida e hábitos, pudessem ser "suspeitos" de desenvolver doença mental e devessem ser conduzidos ao tratamento especializado. Essa forma de atenção à saúde mental foi adotada não só nos Estados Unidos, mas tornou-se referência para a América Latina, através da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), nas décadas de 70 e 80.

AUTOR

Sérgio Luiz Ribeiro

Psicólogo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis-SP.
Especialista em Psicologia Clínica.
Psicólogo do CAPS Espaço Vivo de Botucatu-SP. (de 1999 até 2002).
Psicólogo do Ambulatório Regional de Saúde Mental de Bauru-SP.
Professor do Curso de Psicologia da Universidade Paulista - UNIP de Bauru-SP.
mestrando em Psicologia e Sociedade pela Unesp de Assis-SP.

Fonte : REVISTA PSICOLOGIA Ciência e Profissão - ANO 2004 VOLUME 24 NUMERO 3 - ISSN 1414-9893

http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_serial&lng=pt&pid=1414-9893&nrm=is

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