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Por medo de sofrer, excluímos da vida social todos aqueles que são diferentes de nós. Com isso, perdemos a oportunidade de ouvir o apelo do necessitado e de transformar o mundo num lugar melhor.

Por Jean Vanier - O texto abaixo foi retirado do capítulo 3 do livro O Despertar do Ser, autor - Jean Vanier, Verus Editora. Tradução: Magda França Lopes

No Evangelho de Lucas, Jesus conta uma história comovente. Havia um mendigo chamado Lázaro que vivia nasVeja teor alcoólico no sangue. ruas. Ele vivia faminto, e suas pernas estavam cobertas de feridas. Em frente a ele, em uma bela casa, vivia um homem rico que costumava oferecer grandes festas a seus amigos. Lázaro gostaria de comer algumas migalhas que caíam de sua mesa, mas os cães as devoravam. Certo dia, Lázaro morreu e foi para o lugar de paz, no "seio de Abraão". O homem rico também morreu e foi para o "lugar de tormento". Olhando para cima, ele viu Lázaro radiante de paz e exclamou: "Pai Abraão, por favor, mande que Lázaro venha até aqui para colocar um pouco de água em meus lábios, pois estou sofrendo!" Abraão respondeu: "Impossível. Entre você e ele há um abismo que ninguém pode transpor." Ele poderia ter acrescentado: "Assim como houve um abismo entre você e ele durante a sua vida na Terra."

Essa história de Lázaro nos diz muito sobre o mundo atual, onde há um imenso abismo entre aqueles que têm comida, dinheiro e conforto e aqueles que estão famintos ou não têm uma casa para morar. Lembro-me de ver crianças em Calcutá com o nariz colocado à vitrine de um luxuoso restaurante. De tempos em tempos, o porteiro as enxotava dali. Os ricos - e isso inclui a mim e a muitos de vocês - não gostam de ver mendigos sujos olhando para eles. Não sentimos todos nós constrangimento e medo diante daqueles que estão famintos?

O que é esse abismo que separa as pessoas? Por que somos incapazes de olhar Lázaro nos olhos e escutá-lo?

Suponho que excluímos Lázaro porque tememos que nosso coração fique sensibilizado se entrarmos em um relacionamento com ele. Se escutarmos sua história e ouvirmos seu grito de sofrimento, descobriremos que ele é um ser humano. Podemos ficar sensibilizados diante do seu coração ferido e de seus infortúnios. O que acontece quando nosso coração é sensibilizado? Podemos querer fazer algo para confortá-lo e ajudá-lo, para aliviar seu sofrimento, e para onde isso nos levará? Quando começamos a conversar com um mendigo, corremos o risco de entrar numa aventura. Porque Lázaro não necessita apenas de dinheiro, mas também de um lugar para morar, tratamento médico, talvez trabalho e, mais ainda, ele precisa de amizade.

Por isso é perigoso entrar em um relacionamento com os lázaros do nosso mundo. Se o fizermos, corremos o risco de ter nossa vida modificada.

Todos nós estamos, mais ou menos, encarcerados em nossa cultura, em nossos hábitos, até mesmo em nossas amizades e locais de conexão. Se eu me torno amigo de um mendigo, perturbo as coisas. Os amigos podem se sentir pouco à vontade, até mesmo ameaçados diante do meu novo comportamento; talvez se sintam desafiados a fazer o mesmo. Podem se tornar agressivos, podem criticar o comportamento tolo, que chamam de utópico, daquele que, em meio a eles, age como amigo de um mendigo.

Estou começando a descobrir como o medo é uma força de motivação terrível na nossa vida. Temos medo daqueles que são diferentes. Temos medo do fracasso e da rejeição. E cada vez mais me conscientizo não apenas dos meus próprios medos, mas do medo dos outros. O medo está na raiz de todas as formas de exclusão, assim como a confiança está na raiz de todas as formas de inclusão.

A história da humanidade é uma história de guerra, opressão, escravidão e rejeição. Toda sociedade, em todos os tempos, tem criado suas próprias formas de exclusão.

Há uma lista sem fim daqueles que podemos excluir; cada um de nós, podemos ter certeza, está na lista de alguém: os desabrigados, os doentes, os que estão morrendo, os jovens, os velhos, os fracos, os deficientes, aos estrangeiros, os imigrantes, os portadores de Aids, os alcoólatras, os drogados, os condenados pela justiça.......

Minha experiência da exclusão tem sido principalmente com os portadores de deficiências mentais. Tenho visitado instituições abomináveis no mundo todo. Nos países africanos, tenho visto homens e mulheres, considerados "loucos", acorrentados a árvores, espancados até sangrar para libertar o chamado demônio que os possui. Na América Latina, visitei um manicômio em que cerca de cem homens e mulheres, a maioria seminus, compartilhavam um prédio em ruínas com enormes ratos pretos e brancos.

Mas essa forma de maus tratos físicos é apenas a manifestação de uma exclusão mais ampla.

Cheguei à conclusão de que os portadores de deficiências mentais estão entre as pessoas mais oprimidas e excluídas do mundo. Até mesmo seus próprios pais freqüentemente se sentem envergonhados por terem gerado uma criança "como aquela". Esses pais se sentem humilhados e envergonhados pelo aparente fracasso, tão grande é a pressão social para se criar um bebê perfeito.

Em algumas culturas, as crianças portadoras de deficiências são vistas como um castigo de Deus. No capítulo nove do Evangelho de João, os discípulos questionam Jesus sobre um mendigo que nasceu cego: "Ele nasceu cego por causa dos seus pecados ou por causa dos pecados de seus pais?", perguntam. Esse sentimento de culpa é encontrado em muitas culturas.

O medo como base do preconceito e da exclusão - Há mais de 30 anos tenho convivido com homens e mulheres que foram excluídos da sociedade. Tenho visto de perto como o medo é um grande e terrível motivador das ações humanas. Devido à minha experiência com esses homens e mulheres portadores de deficiências mentais, tornei-me mais consciente de como o medo está no cerne do preconceito e da exclusão.

Todos nós temos medo daqueles que são diferentes, daqueles que desafiam a nossa autoridade, nossas certezas e nossos sistemas de valor. Todos nós temos medo de perder o que é importante para nós, às coisas que nos dão vida, segurança e posição na sociedade. Temos medo da mudança e, desconfio, mais medo ainda do nosso próprio coração.

O medo faz com que coloquemos os portadores de deficiências mentais em instituições afastadas, sombrias. Impede todos nós que temos no bolso o suficiente para pagar uma refeição de compartilhá-la com os lázaros do mundo. É o medo, ironicamente, que nos impede de ser mais humanos, ou seja, nos impede de crescer e mudar. O medo não quer que nada mude; o medo exige o status quo. E o status quo conduz à morte.

O medo sempre busca um objeto. Se eu me sinto inseguro, quase sempre vou encontrar algum bode expiatório para o meu medo, alguém ou algo que eu possa transformar no objeto do meu medo e, portanto, da minha raiva. Mas há algumas categorias amplas para os objetos do medo, e creio que vale a pena examinar algumas.


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