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Início

É relatado o caso de um paciente, sexo masculino, brasileiro, 41 anos, católico, casado, vendedor, com antecedentes de alcoolismo, mas que estava abstinente há quatro anos e sete meses. Começou a se automedicar com um produto fitoterápico para aliviar sintomas

digestivos. Com o tempo, foi aumentando a freqüência e, conseqüentemente, a quantidade de uso, já que esse produto é um alcoolato de ervas medicinais, chegando a consumir em média 600 ml da substânciaVeja droga psicoativa. por dia, isto é, de 25 a 28 unidades de álcoolNa terminologia química, os álcoois constituem um nume­roso grupo de compostos orgânicos derivados de hidrocarbonetos que contém um ou mais grupos hidroxila (-OH). O etanol (ou álcool etílico, C2H5OH) é um dos membros dessa classe de compostos, e é o principal ingrediente psicoativo das bebidas alcoólicas. Por extensão, o termo “álcool” também é usado para referir-se a bebidas alcoólicas.O etanol resulta da fermentação de açúcar produzida por lêvedos. Em condições normais, as bebidas produzidas por fermentação têm uma concentração de álcool que não ultrapassa 14%. Na produção de álcoois por destilação, ferve-se uma mistura fermentada e o etanol que se evapora é recolhido como um condensado quase puro. Além do seu uso para consumo humano, o etanol é também usado como combustível, como solvente e na manufatura química (veja álcool impróprio para o consumo humano).O álcool absoluto (etanol anidro) é o etanol contendo não mais do que 1% de água por massa. Nas estatísticas sobre produção ou consumo de álcool, o álcool absoluto refere-se ao conteúdo de álcool (como 100% de etanol) das bebidas alcoólicas.Do ponto de vista químico, o metanol (CH3OH), também conhecido como álcool metílico e álcool de madeira (ou de amido), é o mais simples dos álcoois. É usado como um solvente industrial e também como um adulterador para desnaturar o etanol e torná-lo impróprio para o consumo (bebidas metiladas). O metanol é altamente tóxico; dependendo da quantidade consu­mida, pode produzir turvação da visão, cegueira, coma e morte.Outros álcoois impróprios para o consumo, com efeitos poten­cialmente nocivos, são consumidos ocasionalmente, como, p.ex., o isopropanol (álcool isopropílico, freqüente em desinfetantes) e etilenoglicol (usado como anticongelante em automóveis).O álcool é um sedativo/hipnótico com efeitos semelhantes aos dos barbitúricos. Além dos efeitos sociais do uso, a intoxi­cação pelo álcool pode resultar em envenenamento e até morte; o uso excessivo e prolongado pode resultar em dependência ou numa ampla variedade de transtornos mentais orgânicos e físicos.Os transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool (F10) são classificados como transtornos decor­rentes do uso de substância psicoativa na CID-10 (F10-F19).Veja também:cardiopatia alcoólica; cirrose alcoólica; dano cerebral associado ao álcool; delirium; encefalopatia de Wernicke; escorbuto; fígado gorduroso alcólico; gastrite alcoólica; hepatite alcoólica; miopatia relacionada com álcool ou drogas; neuro­patia periférica; pancreatite alcoólica; pelagra; pseudo-síndrome de Cushing; síndrome amnésica induzida por álcool ou droga; síndrome de deficiência de tiamina; síndrome fetal alcoólica./dia. É enfatizado o risco de recaídaO retorno ao uso de bebida ou de outra droga após um período de abstinência, freqüentemente acompanhado pela reinstalação de sintomas de dependência. Alguns autores fazem distinção entre recaída e deslize, este último denotando uma ocasião isolada do uso de álcool ou droga. inadvertida em pacientes abstinentes quando de automedicação ou do uso indevido de medicamentos que contenham em sua fórmula componentes que possam causar dependência(F1x.2)Em termos gerais, o estado de necessidade ou dependência de alguma coisa ou alguém para apoio, funcionamento ou sobrevivência. Quando aplicado ao álcool e outras drogas, o termo implica a neces­sidade de repetidas doses da droga para sentir-se bem ou para evitar sensações ruins. No DSM-IIIR, a dependência é definida como “um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e psicológicos que indicam que uma pessoa tem o controle do uso da substância psico­ativa prejudicado e persiste nesse uso a despeito de conseqüências adversas”. Equivale aproximadamente à síndrome de dependência da CID-10. No contexto da CID-10, o termo dependência refere-se de maneira geral a qualquer dos elementos da síndrome. O termo é freqüentemente usado como equivalente de adicção e de alcoo­lismo.Em 1964 uma Comissão de Peritos da OMS introduziu “depen­dência” em substituição a adicção e hábito10. O termo pode ser usado de maneira genérica em relação a todas as drogas psicoativas (depen­dência de drogas, dependência química, dependência do uso de subs­tância), ou referir-se especificamente a uma droga em particular ou a uma classe de drogas (p.ex., dependência de álcool, dependência de opióide). Embora a CID-10 descreva dependência em termos aplicá­veis a todas as classes de drogas, há diferenças entre os sintomas de dependência característicos das diferentes drogas.De forma não qualificada, dependência refere-se a ambos os elementos físicos e psicológicos. A dependência psicológica ou psíquica refere-se à vivência de controle prejudicado sobre o beber ou o uso da droga (veja craving, compulsão), ao passo que a depen­dência fisiológica ou física refere-se à tolerância e aos sintomas de abstinência (veja também neuro-adaptação). Em discussões de orien­tação biológica, dependência é freqüentemente usada com referência à dependência física apenas.Ainda no contexto psicofarmacológico, emprega-se também dependência ou dependência física num sentido mais limitado para referir-se exclusivamente ao desenvolvimento de sintomas de absti­nência que seguem uma interrupção do uso de droga. Neste sentido restrito, a dependência cruzada é vista como complementar a tole­rância cruzada, e ambas definições referem-se somente à sintomato­logia física (neuroadaptação)..

Descritores

Alcoolismo. Automedicação. Medicina de ervas.

Introdução

O trabalho clínico diário em comunidade terapêuticaUm ambiente estruturado no qual indivíduos com transtornos por uso de substância psicoativa residem para alcançar a reabi­litação. Tais comunidades são em geral especificamente destinadas a pessoas dependentes de drogas; elas operam sob normas estritas, são dirigidas principalmente por pessoas que se recuperaram de uma dependência, e são em geral isoladas geograficamente. As comuni­dades terapêuticas são caracterizadas por uma combinação de “teste de realidade” (através da confrontação do problema relacionado ao uso de droga do indivíduo) e de apoio dos funcionários e de co-residentes para a recuperação. Elas têm geralmente uma linha muito similar à dos grupos de ajuda mútua tais como Narcóticos Anônimos.Veja também:pensão protegida. com dependentes de substância psicoativa permite observar uma série de fatos relacionados à substituição de uma substância por outra.

Em meados da década de 80, por exemplo, não era raro no serviço do Instituto Bairral de PsiquiatriaPsiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade.A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico. Para isso, é necessária uma avaliação completa do doente, com perspectivas biológica, psicológica, sociológica e outras áreas afins.Uma doença ou problema psíquico pode ser tratado através de medicamentos ou várias formas de psicoterapia.A avaliação psiquiátrica envolve o exame do estado mental e a história clínica. Testes psicológicos, neurológicos e exames de imagem podem ser utilizados na avaliação, assim como exames físicos. Os procedimentos diagnósticos variam mas os critérios oficiais estão descritos em manuais como a CID-10 da Organização Mundial de Saúde e o DSM-IV da American Psychiatric Association. a admissão de pacientes com uso dependente de substância analgésica ou antiparkinsoniana, como o cloridrato de propoxifeno e triexifenidil, respectivamente. Tal procedimento era uma maneira do usuário substituir a cocaínaUm alcalóide obtido das folhas de coca (Erythroxylon coca) ou sintetizado a partir da ecgonina ou de seus derivados. O hidrocloreto de cocaína era comumente usado como anestésico local em odonto­logia, oftalmologia e cirurgias de ouvido, nariz e garganta, dada a sua forte ação vasoconstritora que ajuda a reduzir as hemorragias locais.A cocaína é um poderoso estimulante do sistema nervoso central, usado sem indicação terapêutica para produzir euforia ou “ligação”; o uso repetido produz dependência. A cocaína ou “coca” é geralmente vendida como cristais brancos e translúcidos, ou em pó (“farinha” ou “pó”), freqüentemente adulterada com açúcares ou anestésicos locais. O pó é aspirado (“cheirado” ou “cafungado”) e produz efeitos imediatos (entre 1 a 3 minutos de latência) que duram em torno de 30 minutos.A cocaína pode ser ingerida oralmente, geralmente com álcool; os usuários de opióides e cocaína combinados geralmente os injetam por via intravenosa. Alguns elementos alcalinos (freebase) são utilizados para aumentar a potência da cocaína pela extração do alcalóide puro através da inalação dos vapores em cigarros ou narguilé (cachimbo de água). Uma solução aquosa de sal de cocaína é misturada com um álcali (como bicarbonato de sódio) e o extrato é obtido através de um solvente orgânico como o éter ou o hexano. O procedimento é peri­goso uma vez que a mistura é explosiva e altamente inflamável. Um procedimento mais simplificado que evita o uso de solventes orgânicos consiste em aquecer o sal de cocaína com bicarbonato de sódio; isto produz o crack.O crack ou “pedra” é uma cocaína alcaloidal (básica), um composto amorfo que pode conter cristais de cloreto de sódio. É um composto de coloração bege. Crack refere-se ao som de estalido provo­cado quando o composto é aquecido. Um efeito intenso ocorre de 4 a 6 segundos após a inalação do crack. Um sentimento de exaltação e de desaparecimento de ansiedade é vivenciado, junto com um exagerado sentimento de confiança e auto-estima. Há também uma perturbação do juízo crítico e o usuário tende a cometer atos irresponsáveis, ilegais ou perigosos, sem se preocupar com as conseqüências.A fala fica acelerada e pode se tornar desconexa e incoerente. Os efeitos agradáveis terminam em torno de 5 a 7 minutos, depois do que o humor rapidamente muda para depressão e o consumidor é compelido a repetir o processo de forma a recuperar a euforia do ápice. A superdose parece ser mais freqüente com o crack que com outras formas de cocaína.A interrupção do uso contínuo de cocaína é geralmente seguida por uma crise que pode ser vista como uma síndrome de abstinência, na qual a exaltação dá lugar à apreensão, depressão profunda, sono­lência e inércia.Podem ocorrer reações tóxicas agudas tanto no consumidor de cocaína principiante quanto no inveterado. Essas reações incluem delirium semelhante ao pânico, hiperpirexia, hipertensão (algumas vezes com hemorragia subdural ou subaracnóide), arritmias cardí­acas, infarto do miocárdio, colapso cardiovascular, convulsões, estado de mal epiléptico e morte. Outras seqüelas neuropsiquiátricas incluem uma síndrome psicótica com delírios paranóides, alucinações visuais e auditivas e idéias de auto-referência. “Luzes na neve” (snow lights) é o termo usado para descrever alucinações ou ilusões que lembram o brilho do sol nos cristais de neve. Foram descritos efeitos terato­gênicos, incluindo anormalidades do trato urinário e deformidade dos membros. Os transtornos por uso de cocaína estão entre os trans­tornos por uso de substâncias psicoativas incluídas na CID-10 (classificadas em F14)., mais rara e de mais alto custo financeiro na época. Entretanto, essas e outras substituições praticamente desapareceram, não só pelo fato das substâncias mencionadas terem sido retiradas do mercado, mas também, é possível, devido ao aumento do tráfico de cocaína e ao aparecimento do crackVeja cocaína., de mais baixo custo.1

Atualmente, de maneira esporádica, tem-se constatado casos de alcoolistas que utilizam álcool puro ou misturado com suco de alguma fruta quando em crise de abstinênciaA abstenção do uso de droga ou (particularmente) de bebidas alcoólicas, por questão de princípio ou por outras razões.Quem pratica a abstinência de álcool é chamado de “abstêmio” ou “abstêmio total”. A expressão “atualmente abstinente”, freqüentementeempregada em inquéritos populacionais, geralmente define uma pessoa que não ingeriu bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses; esta definição não coincide necessariamente com a descrição que o próprio indivíduo faz de si como um abstêmio.O termo “abstinência” não deve ser confundido com “síndrome de abstinência” ( Deve-se, no entanto, diferenciar “abstêmio” (pessoa que não bebe ou não usa drogas) de “abstinente” (pessoa que presentemente não está bebendo, que não está usando drogas).Veja também: sobriedade; temperança. e, ao mesmo tempo, impossibilitados de obter a substância. O DSM-IV2 apresenta vários medicamentos que, vendidos com ou sem prescrição médica, podem também causar transtornos relacionados à substância, quer pelo uso (abusoabuso (de drogas, de álcool, de substâncias, de produtos químicos ou de substâncias psicoativas)Um grupo de termos muito utilizado embora com significados variáveis. Na 3a. edição revista do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (DSM-III-R), “abuso de subs­tância psicoativa” é definido como “padrão desajustado de uso indicado pela continuação desse uso apesar do reconhecimento da existência de um problema social, ocupacional, psicológico ou físico, persistente ou recorrente, que é causado ou exacerbado pelo uso recorrente em situações nas quais ele é fisicamente arriscado”. Trata-se de uma categoria residual, ao qual é preferível o diagnóstico de dependência, quando for o caso. O termo “abuso” é algumas vezes utilizado de forma desaprovativa para designar qualquer tipo de uso, particularmente o de drogas ilícitas. Devido à sua ambigüidade, o termo não é usado na 10a. revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (exceto no caso de substâncias que não produzem dependência; veja mais adiante); uso nocivo e uso arriscado são os termos equivalentes na terminologia da OMS, embora eles geralmente digam respeito apenas aos efeitos físicos e não às conseqüências sociais. O emprego de “abuso” também é desestimulado pelo Escritório de Prevenção do Abuso de Substâncias dos EUA, embora expressões como “abuso de substâncias” sigam sendo amplamente utilizadas na América do Norte, para se referir, de modo geral, aos problemas do uso de substâncias psicoativas.Em outros contextos, o abuso já indicou padrões de uso não-médico ou não aprovado, independentemente das conseqüências. Assim, a definição publicada em l969 pela Comissão de Peritos da OMS em Dependência de Drogas foi “uso excessivo de droga, persis­tente ou esporádico, inconsistente ou sem relação com a prática médica aceitável” (veja uso indevido de álcool ou droga). ou dependência), quer induzido pela substância.

Este caso chama a atenção porque é o primeiro a empregar a casuística utilizada pelos autores do presente estudo, em que a bebida alcoólicaLíquido que contém álcool (etanol) e é destinado a ser bebido. Quase todas as bebidas alcoólicas são preparadas por fermentação, que pode ser seguida – no caso dos destilados – por destilação. A cerveja é produzida através da fermentação de cereais (cevada maltada, arroz, milho, etc.) freqüentemente com a adição de lúpulo. Os vinhos são produzidos através da fermentação de frutas, particular­mente de uvas. O Xerez, o vinho do Porto e outros vinhos fortificados são vinhos aos quais se adicionam certos destilados, habitualmente para obter-se um conteúdo de etanol de cerca de 20%. Outros produtos de fermentação tradicionais são o hidromel (a partir de mel), cidra (de maçã ou outras frutas), saquê (de arroz), pulque (do cacto agave) e chicha (de milho).Os destilados variam quanto à matéria prima (cereal ou fruta) da qual são derivados: por exemplo, a vodca é feita a partir de cereais ou de batatas; o uísque, de centeio ou milho; o rum, de cana de açúcar; e o conhaque, de uvas ou outras frutas.O álcool também pode ser sintetizado quimicamente (do petróleo, por exemplo), mas raramente tem-se usado isso para produzir bebidas alcoólicas.Inúmeros congêneres – constituintes das bebidas alcoólicas que não o etanol e a água – já estão identificados, mas o etanol é o prin­cipal ingrediente psicoativo em todas as bebidas alcoólicas comuns.As bebidas alcoólicas têm sido usadas desde a pré-história na maioria das sociedades tradicionais, exceto na Australásia, na América do Norte (logo ao norte da atual fronteira entre os EUA e o México) e na Oceania. Muitas bebidas fermentadas tradicionais tinham um conteúdo de álcool relativamente baixo e só podiam ser armazenadas por poucos dias.A maioria dos governos procura criar alvarás ou impostos espe­ciais ou mesmo controlar completamente a produção e a venda de álcool, embora possa permitir a produção caseira de diversos tipos de bebidas alcoólicas. Em vários países, certas bebidas alcoólicas (prin­cipalmente destiladas) são produzidas ilicitamente, e podem se conta­minar com substâncias tóxicas (chumbo, por exemplo) no processo de produção. é substituída por uma substância fitoterápica, ou seja, substância composta de ervas medicinais.

Caso

Paciente do sexo masculino, brasileiro, 41 anos, católico, casado pela segunda vez (dois filhos desse casamento e um do primeiro), vendedor. Tem duas irmãs; os pais têm boa saúde. O paciente é o único caso de alcoolismo na família.

Os primeiros contatos com bebida alcoólica ocorreram na juventude. Abusos de álcool a partir de 1994, já que sob o efeito da substância apresentava dificuldades de comportamento social e interpessoal, principalmente agressividade no âmbito familiar. Nessa época houve a separação do casal (segundo casamento).

Em agosto de 1994, foi admitido voluntariamente no Instituto Bairral de Psiquiatria no programa terapêutico para alcoolistas,3 com o diagnóstico de dependência de substância (álcool), uso contínuo, de acordo com os critérios da CID-10.4 Após quatro semanas de tratamento recebeu alta hospitalar. Retomou sua atividade profissional e reconciliou-se com a esposa. Não seguiu programa ambulatorial, mas permaneceu em abstinência até março de 1999.

No final de março de 1999, estando certa ocasião em casa de seus pais, "sentiu uma azia muito forte". Os pais ofereceram-lhe um produto fitoterápico digestivo que tinham em casa. Fez uso de 10 ml do produto (a dose recomendada é 5 ml), e disse ter sentido "algo muito estranho". No período de abstinência também apresentava episódios compulsivos à alimentação, seguidos de vômitos induzidos.

Posteriormente não só começou a utilizar a substância fitoterápica com mais freqüência para aliviar seus desconfortos digestivos, como também foi aumentando gradativamente a quantidade de consumo da substância. Em setembro de 1999, estava tomando em média 600 ml da substância por dia. Passou a ser questionado pelos familiares se estava bebendo alcoólicos, já que estava apresentandocomportamentos agressivos semelhantes à época em que bebia. Porém, negava o uso de alcoólicos, ao mesmo tempo que tinha como respaldo o fato de não estar freqüentando bares, como era comum antes da primeira internação.

Em outubro de 1999, por problemas de relacionamento familiar e no trabalho, o paciente assumiu que estava ingerindo o composto fitoterápico, decidindo então buscar ajuda médica, a qual indicou internação em clínicaClínica médica, no Brasil, também conhecida como Medicina Interna e Clínica geral, é a especialidade médica que trata de pacientes adultos, atuando principalmente em ambiente hospitalar. Inclui o estudo das doenças de adultos, não cirúrgicas, não obstétricas e não ginecológicas, sendo a especialidade médica a partir da qual se diferenciaram todas as outras como Cardiologia e Pneumologia.No Brasil, o especialista em Clínica médica deve cumprir, além do curso de Medicina, dois anos de Residência médica.Em Portugal, trata-se de um termo actualmente a cair em desuso. Em sua substituição, surgiu a Especialidade de Medicina Geral e Familiar, mais abrangente e de natureza diferente.

  1. Clínica
  2. Angiologia
  3. Cardiologia
  4. Dermatologia
  5. Endocrinologia
  6. Gastroenterologia
  7. Geriatria
  8. Hematologia
  9. Infectologia
  10. Nefrologia
  11. Neurologia
  12. Pediatria
  13. Pneumologia
  14. Psiquiatria
  15. Reumatologia
psiquiátrica. Foi novamente admitido no Instituto Bairral.

Exame psíquico

Com voz pastosa. Refere estar sob efeito de alcoólicos, ingerindo composto fitoterápico com álcool na fórmula.

Verbalização com nexo, sem distúrbios alucinatórios.

Humor facilitado e certa prodigalidade. Ansioso. Liberação de agressividade quando sob efeito da substância.

Crítica parcial. Insone e inapetente. Emagrecido. A esclarecer episódios compulsivos à alimentação e vômitos induzidos.

HD: Dependência de álcoolVeja dependência. _ uso contínuo. TabagismoUm vocábulo de origem francesa que se refere à condição do fumante gravemente dependente da nicotina e que, em conseqüência, manifesta graves sintomas de abstinência. Equivalente a síndrome de dependência do tabaco.. Bulimia.

No plano medicamentoso foi prescrito diazepamUma benzodiazepina comum. _ 10 mg/noite; fluoxetina _ 10 mg/dia; e complexo B _ duas drágeas/dia.

No plano socioterápico, apoio psicológico individual e grupal, atividades de terapia ocupacional, atividades esportivas e recreativas.

Paciente permaneceu duas semanas internado, saindo a pedido. Foi indicado seguimento ambulatorial (psiquiátrico e psicológico).

Dados sobre a substância fitoterápica:

O produto fitoterápico em questão é um alcoolato de quatorze ervas medicinais, destacando a Matricaria chamomilla (camomila), tendo como indicação terapêutica o auxílio da digestão.

A maioria das ervas que compõem o medicamento está na forma de extratos fluídos e tinturas. Isso quer dizer que o princípio ativo de cada uma dessas ervas é obtido por meio de diluição alcoólica. Daí o nome de alcoolato. Embora a fórmula não cite a percentagem da diluição, geralmente esta é de 45% ou 50%.5

Sendo a soma da quantidade de cada princípio ativo de todos os componentes da fórmula de 0,3137 ml para cada 5 ml, que é a dose terapêutica recomendada, aproximadamente 4,7 ml da dose é veículo alcoólico a 45% ou 50%.

Discussão

A fluoxetina foi indicada para tentar o controle do transtorno alimentar, embora com o risco de aumentar a elação, pois o paciente apresentava humor facilitado, prodigalidade e maneira envolvente de ser. Entretanto, esses comportamentos relacionados ao humor facilitado, com o tempo, pareceram mais características de personalidade, as quais estão conforme ao segundo tipo psicológico dominante de alcoolistas descrito por Vallejo-Nagera:6 pessoas influentes verbalmente, sociáveis, simpáticas, habitualmente eufóricas, sem inibições ou autocrítica. Possuem pouca tolerânciaUma diminuição de resposta a uma dose de determinada subs­tância que ocorre com o uso continuado da mesma. No consumidor freqüente ou de grandes quantidades de bebidas alcoólicas (ou de outras drogas), por exemplo, são necessárias doses mais elevadas de álcool para alcançar os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas. Tanto fatores psicológicos como psicossociais podem contribuir para o desenvolvimento da tolerância, que pode ser física, comportamental ou psicológica. Com respeito aos fatores fisiológicos, pode desenvolver-se tanto a tolerância metabólica como a funcional, isoladas ou conjuntamente. Aumentando-se a taxa de metabolismo da substância, o organismo pode ser capaz de eliminar a substância mais rapidamente. A tolerância funcional é definida pela diminuição da sensibilidade do sistema nervoso central à substância. A tolerância comportamental é uma mudança no efeito da droga como resultado de aprendizado ou de alterações ambientais. A tolerância aguda é uma acomodação rápida, temporária, ao efeito de uma substância após uma única dose. A tolerância reversa, também conhecida como sensibilização, refere-se a uma condição na qual a resposta a uma substância aumenta com o uso repetido.A tolerância é um dos critérios para a síndrome de depen­dência. para experiências desagradáveis, não suportando as contrariedades.

Para Halmi não é raro um transtorno alimentar em dependentes químicos, mais comum no alcoolismo. Smukler (1984), citado por Halmi (1992), aponta que a bulimia se enquadra bem na adição.7 Assim, a bulimia como comorbidade da dependência de substância psicoativa pode também ser entendida como uma forma de conduta adicional. No paciente o transtorno alimentar era manifesto na abstinência, o que leva à suposição de servir como mecanismo substituto ou compensatório do não beberIngestão de bebida; especificamente, neste contexto, uso de bebida alcoólica..

Essas considerações revelam que a rigor o caso apresentado não difere substancialmente de outros casos de alcoolismo atendidos e tratados em clínicas ou ambulatórios. A diferença está precisamente no tipo de substância substituta utilizada para o álcool, ou seja, um produto fitoterápico.

O paciente estava fazendo uso de 600 ml do produto, em média, por dia. Se, como já exposto, para cada dose terapêutica (5 ml) 4,7 ml correspondem a álcool diluído a 45% ou a 50%, então o paciente estava consumindo diariamente 564 ml de veículo alcoólico a 45% ou 50%, ou seja, em torno de 253 gramas a 282 gramas de álcool, o que significa um consumo de 25 a 28 unidades de álcool/dia. Isso sem contar possíveis efeitos de superdosagem dos princípios ativos das ervas medicinais, já que por não serem produtos inócuos podem apresentar efeitos colaterais.5

Segundo critérios apontados por Laranjeira,8 o consumo de menos de 21 unidades de álcool por semana tem baixo risco para a saúde; de 22 a 50 unidades de álcool por semana tem risco moderado, e o consumo de mais de 51 unidades de álcool por semana tem um alto risco à saúde. O paciente, com o consumo médio diário de 25 a 28 unidades de álcool, portanto uma quantidade acima do critério de alto risco para a sua saúde (a partir de 51 unidades por semana), apresentava um quadro de intoxicaçãoUma situação conseqüente à administração de uma substância psicoativa e que resulta em perturbações do nível da consciência, da cognição, da percepção, do juízo crítico, do afeto, do comportamento ou de outras funções e reações psicofisiológicas. As perturbações estão relacionadas com a substância através dos efeitos farmacoló­gicos agudos e das reações aprendidas relativos à substância e desa­parecem completamente com o tempo, exceto quando houver surgido lesões teciduais ou outras complicações. O termo é mais comumente utilizado em relação ao uso de álcool; seu equivalente da linguagem diária é “embriaguez”. A intoxicação pelo álcool manifesta-se por rubor facial, fala empastada, marcha instável, euforia, hiperatividade, volubilidade, perturbação da conduta, diminuição do tempo de reação, juízo crítico perturbado, descoordenação motora, insensibilidade ou estupor.A intoxicação aguda depende muito do tipo e da dose da droga e é influenciada pelo nível individual de tolerância e por outros fatores. Muitas vezes uma droga é consumida exatamente para se conseguir um grau desejado de intoxicação. A expressão comportamental de um determinado grau de intoxicação é fortemente influenciada pelas expectativas culturais e pessoais acerca dos efeitos da droga.Intoxicação aguda é o termo empregado na CID-10 para designar uma intoxicação com importância clínica (F1x 0). As compli­cações podem incluir traumatismos, aspiração do vômito, delirium, coma e convulsões, dependendo da substância e do método de administração.A intoxicação habitual (ou embriaguez habitual), expressão usada basicamente em relação ao álcool, designa um padrão regular ou recorrente de beber até à intoxicação. Tal padrão às vezes é consi­derado como um delito, independentemente de episódios isolados de intoxicação.Outros termos gerais para intoxicação ou intoxicado incluem: embriaguez, embriagado, estar alto, bêbado.Veja também:bebedor de rua; intoxicação. alcoólica, que se fazia notar pela presença de alterações comportamentais e psicológicas, clinicamente significantes e mal-adaptativas, por exemplo comportamento agressivo, prejuízo do funcionamento social e ocupacional e crítica parcial.

Recaídas são freqüentes na recuperaçãoA manutenção de qualquer forma de abstinência de álcool e/ou de drogas. O termo é particularmente associado com os grupos de ajuda mútua; entre os Alcóolicos Anônimos (AA) e outros grupos dos doze passos refere-se ao processo de atingir e manter a sobrie­dade. Posto que a recuperação é vista como um processo que dura toda a vida, um membro do AA é sempre visto internamente como um alcoólico “em recuperação”, embora o termo alcoólico “recuperado” possa ser usado fora do grupo. de pacientes alcoolistas. Há evidências que sugerem que 70% a 80% dos bebedores-problema por várias vezes não conseguiram manter a abstinência.8 Geralmente a recaída é seguida de culpa e de forte sentimento de fracasso, em que o dependente acredita que todo o seu esforço foi perdido.

O paciente estava há quatro anos e sete meses em abstinência. Sem acompanhamento especializado e escondendo de seus familiares o transtorno alimentar, apenas queixava-se de "problemas digestivos", provavelmente relacionados à bulimia. O fato do produto fitoterápico ter sido oferecido pelos pais para aliviar as queixas digestivas e por ser um medicamento, o paciente, mesmo quando começou a aumentar a dosagem, não sentia culpa ou fracasso, nem se sentia responsável por estar quebrando a abstinência. A dosagem era aumentada em decorrência dos sintomas gastrointestinais, formando com o tempo um círculo vicioso. E quanto aos efeitos alcoólicos do uso da substância, considerava que estava usando um "remédio para um problema clínico". O paciente não negava que o consumo da substância fitoterápica proporcionava "certa satisfação", mas a aceitação que estava consumindo de fato alcoólicos emergiu quando reapareceu o comportamento agressivo que causou problemas no relacionamento familiar e no trabalho.

Conclusão

O caso apresentado evidencia os riscos da automedicação e do uso indevido de medicamento, sugerindo cuidados na prescrição, na orientação individual ou em grupos de psicoeducação com pacientes dependentes de álcool, abstinentes em tratamento ou com histórico de alcoolismo e em abstinência, a fim de evitar recaídas inadvertidas.

Com isso, é falsa a idéia, geralmente da população leiga, que certos medicamentos, em especial os elaborados com ervas medicinais, não possam produzir efeitos colaterais ou riscos para a saúde quando utilizados impropriamente e sem prescrição médica.

Autor

José Antônio Zago
Instituto Bairral de Psiquiatria
Rua Dr. Hortêncio Pereira da Silva, 313
13.970-000 Itapira, SP
Tel.: (0xx19) 3863-9414
E-mail: bairral@bairral.com.br .

Alcohol dependence by inappropriate use of phytotherapic substance:
José Antônio Zago*,
Sérgio Augusto M dos Santosa,
José Carlos Salzania e
Josi Aparecida SM de Araújo**

*Instituto Bairral de Psiquiatria, Itapira, SP.
**Farmacêutica do Instituto Bairral de Psiquiatria, Itapira, SP

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Referências

  1. Dunn J, Laranjeira R, Da Silveira DX, Formigoni MLOS, Ferri CP. Crack-cocaine; an increase in use among patients attending clinics in São Paulo: 1990-1993. Substance Use & Misuse 1996;31:519-27.
  2. American Psychiatric Association [DSM-IV]. Manual de diagnóstico e estatística de transtornos mentais. 4a ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.
  3. Zago JA, Salzani JC, Santos SAM, Samora CAB, Tofanello JM, Virga CC, et al. Programa terapêutico para dependentes de drogasUm termo de uso variado. Em medicina, refere-se a qualquer substância com o potencial de prevenir ou curar doenças ou aumentar o bem estar físico ou mental; em farmacologia, refere-se a qualquer agente químico que altera os processos bioquímicos e fisiológicos de tecidos ou organismos. Portanto, droga é uma substância que é, ou pode ser, incluída numa farmacopéia. Na linguagem comum, o termo se refere especificamente a drogas psicoativas e em geral ainda mais especificamente às drogas ilícitas, as quais têm um uso não médico além de qualquer uso médico. As classificações profissionais (por exemplo: “álcool e outras drogas”) normalmente procuram indicar que a cafeína, o tabaco, o álcool e outras substâncias de uso habi­tual não médico sejam também enquadradas como drogas, na medida em que elas são consumidas, pelo menos em parte, por seus efeitos psicoativos. e álcool do Instituto Bairral de Psiquiatria. J Bras Psiquiatr 1999;48:563-71.
  4. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993.
  5. Teske M, Trentini AMM. Compêndio de fitoterapia. Curitiba: Laboratório Herbarium; 1994.
  6. Vallejo-Nagera JA. Introducción a la psiquiatría. 8a ed. Barcelona: Científico-Médica; 1976.
  7. Halmi KA. Transtornos da alimentação. In: Talbott J, Halles R, Yudofsky S, editores. Tratado de psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992. p. 559-68.
  8. Laranjeira R. Abuso e dependência de álcool. Diagnóstico & Tratamento 1997;2:43-50.

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SOBRE INTERNAÇAO

BOM DIA
MEU IRMÃO TEM SINDROME DO PÂNICO E É ALCOOLATRA
MINHA FAMÍLIA ESTÁ DESESPERADA.
GOSTARIAMOS DE TRATA LO COM A INTERNAÇAO.
VOCES POSSUEM ALGUM CONVENIO???
ATT
MARIA CECILIA CONDOTTA

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Abstinência e dependência quimica

"Uma concepção errada que prevalece tanto na profissão médica como no público leigo é que o tratamento da dependência química invariavelmente fracassa.

Nada mais longe da verdade, o tratamento da abstinência é eficaz e seguro, embora a melhora seja variável...

...já é ponto pacífico que o melhor tratamento é uma combinação de terapias medicamentosas e psicossociais, aplicadas as duas em doses otimizadas" >> Continuar...


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